Sunday, July 21, 2024

Portugal e Guiné-Bissau: O Eixo da Maledicência ou a Cooperação Estratégica

Hélder Vaz, Embaixador da Guiné-Bissau em Portugal

Em 2014 a “geração dos príncipes de Odessa”, preparada na ex-URSS para dirigir a Guiné-Bissau, tomou as rédeas do poder no Paigc, capitaneada por Domingos Simões Pereira, um engenheiro formado em Odessa. Rapidamente essa elite “anti-glasnost” instalou, em Bissau, uma nova “nomenklatura” sedenta de enriquecimento rápido, que se transformou numa oligarquia, à imagem da Rússia dos anos 90. A corrupção praticada pelo governo de Domingos Simões Pereira, traduzida em cheques do tesouro público no valor de milhões de euros, emitidos em nome da secretária pessoal do mesmo e de outras pessoas próximas, obrigou o então Presidente José Mário Vaz a demitir o governo. A partir desse momento, apoiado numa vasta rede de influência nos média portugueses o líder do Paigc plantou uma enormidade de equívocos, maledicências e inverdades que, de tão repetidos, passaram a ser a única verdade sobre a Guiné-Bissau.

1º Equívoco: o poder foi abusivamente retirado ao Paigc, partido vencedor das eleições. Em 2019 o Paigc venceu sem maioria absoluta e formou um governo de coligação com a APU. No decurso da legislatura aquela coligação implodiu e formou-se nova maioria com a APU, PRS e MADEM, que deu lugar a um governo maioritário, que aprovou o seu programa e dois orçamentos. Portanto, este argumento, esgrimido na imprensa portuguesa, é falso.

2º Equívoco: a Guiné-Bissau é um narco-estado. Na verdade, o narcotráfico na Guiné-Bissau está historicamente ligado a um Partido, o Paigc, e não ao Estado. Depois de em 1998, no início da guerra civil, ter sido encontrada cocaína com um empresário ligado ao Paigc, em 2005, foram elementos do Paigc que introduziram o narcotráfico na Guiné-Bissau, a partir de Conakry, tendo usado este expediente para comprar oficiais das forças armadas, a fim de assassinarem o General Veríssimo Seabra e o Coronel Domingos Barros. Entre 2005 e 2007 o Paigc usou o aparelho de Estado para facilitar as actividades dos narcotraficantes sul-americanos. Em 2008 o ex-Primeiro-Ministro Aristides Gomes foi acusado pelo Ministério Público pelo desvio de 730 Kg de cocaína que se destinavam a ser incinerados. Até hoje, Aristides Gomes, que foi Primeiro-ministro do Paigc de Domingos Simões Pereira até Março de 2020, é o único alto dirigente partidário acusado pela justiça guineense por tráfico de droga. Em 2019, graças à colaboração da Interpol, ocorreu a apreensão de duas toneladas de cocaína. Aristides Gomes, PM, que se encontrava em Portugal, apressou-se a regressar a Bissau para participar na incineração dessa droga que se deu na sua presença e de membros do seu governo, a escassos dois metros dos pretensos sacos de droga, sem máscaras e sem que tivessem ficado intoxicados. Associado a este caso está o nome de John Cano Zambrano, um narcotraficante colombiano a quem, na mesma ocasião e menos de 24 horas após este ter chegado a Bissau, Aristides Gomes nomeou seu conselheiro especial e mandou dar um passaporte diplomático, tendo-o retirado dos calabouços da PJ e colocado num voo rumo a Lisboa. Há cerca de um mês, Domingos Simões Pereira, num apelo à subversão, reuniu com oficiais generais ligados ao tráfico de droga na mata de Patche Yalá. Estes são factos que certa imprensa sempre encobriu e escondeu do público, favorecendo a imagem do Paigc, que apresenta os militares como bodes expiatórios do tráfico de droga e esconde o facto de esses não passarem de paus mandados de certos políticos.

Conclusão, na Guiné-Bissau, desde 2005, há um narco-partido por detrás do narcotráfico e não um narco-estado.

3º Equívoco: Umaro Sissoco Embaló é um Presidente autoproclamado. Na verdade, a Lei eleitoral da Guiné-Bissau estabelece que a entidade que proclama o vencedor é a CNE- Comissão Nacional de Eleições. Foi essa entidade que proclamou Sissoco Embaló vencedor. Subsequentemente, haveria, isso sim, uma tentativa do Paigc para subverter o veredicto popular expresso nas urnas, sequestrando o STJ a fim de este se substituir à CNE. Largos nove meses depois, o próprio STJ veio a confirmar essa tese, ao reconhecer a inexistência de objecto e recurso por falta de reclamações e protestos nas mesas de Assembleia de votos, o que vem conferir maior legitimidade ao vencedor das eleições, corroborando a decisão da CNE em publicar os resultados definitivos. Conclusão: Sissoco Embaló foi proclamado vencedor pela CNE e investido pelos deputados, de acordo com a Lei, portanto o argumento da auto-proclamação é falso.

4º Equívoco: Sissoco Embaló tomou posse num hotel. Com efeito, aquando das eleições legislativas de 2019 já o edifício sede do Parlamento de encontrava em obras de reabilitação, razão pela qual os deputados então eleitos tomaram posse no salão do hotel Azalai, passando a decorrer nesse mesmo salão as sessões plenárias da ANP. Pela mesma razão a cerimónia de investidura do Presidente Sissoco Embaló foi realizada nesse mesmo espaço. Portanto, esse argumento que é apresentado como sinal da ilegalidade do empossamento também é falso.

A lista de falsos argumentos que o Paigc coloca nas caixas de correio de jornalistas e comentadores portugueses, poderia ser desmontada até à exaustão. Mas a seriedade como alguns que nunca visitaram Bissau falam e escrevem sobre o nosso país é, também, muito questionável. Pior que isso, é um péssimo serviço prestado a Portugal, porque o interesse de Portugal na África ocidental – espaço CEDEAO com um mercado comum de 380 milhões de consumidores – passa pela sólida concretização da politica de estabilização e afirmação da autoridade do Estado que o Presidente Sissoco Embaló vem perseguindo, condição indispensável para a implementação de uma Parceria Estratégica entre os dois países irmãos, que irá abrir o mercado da CEDEAO às exportações e investimentos das empresas portuguesas.

(Texto escrito em Português)

Partilhe este artigo:

- Advertisement -
- Advertisement -

Artigos recentes | Recent articles

AMO and H/Advisors – A short history

It all started 22 years ago on Madison Avenue. Three of the world’s most senior financial PR professionals met to discuss a ground-breaking alliance, that would change the shape of the communications industry.

A conversation with Henry Kissinger

Over two days in late April 2023, The Economist spent over eight hours in conversation with Dr Kissinger. Just weeks before his 100th birthday, the former secretary of state and national security adviser laid out his concerns about the risks of great power conflict and offered solutions for how to avoid it. This is a transcript of the conversation, lightly edited for clarity.

The world on the wrong path

A new geopolitical and economic order is being written through the emergence of China as an economic, military and diplomatic superpower and threatening the status of the United States. We are heading towards a multipolar world in which the search for strategic autonomy is changing the dynamics of international trade for the worse. Nothing will be more determinant to the world’s destiny over forthcoming years than the relationship between Beijing and Washington. Europe risks being a mere bystander.

Notable growth and still with potential to achieve

Mozambique two decades ago was a very different country than it is today. The population in 2003 had just broken 19 million, today it totals 34 million, which corresponds to an increase of practically 79%, an explosion in growth in a continuing trend that undoubtedly reflects a very relevant factor to take into account as regards this country.

CV&A Conferences

Throughout these two decades, CV&A has been staging high profile conferences of great national interest and attracting the participation of former heads of government and political leaders with global influence.

David Cameron

David Cameron was Prime Minister of the United Kingdom between 2010 and 2016, leading the first British coalition government in almost 70 years before, in 2015, forming the first majority Conservative government in over two decades.

Cameron came to power in 2010, during a period of economic crisis and with the country in an unprecedented fiscal position. Under his leadership, the British economy was transformed. The deficit was reduced by over two-thirds, a million companies got launched and there were records in terms of job creation, turning the United Kingdom into the advanced economy registering the fastest growth rate. This scenario brought about the stability that the government needed to cut taxes and introduce the national minimum wage, transforming education, reforming the social security system, protecting the National Health Service and raising pensions.

Mais na Prémio

More at Prémio

- Advertisement -