Sexta-feira, Junho 25, 2021

“Empresas portuguesas precisam de visão de longo prazo no Brasil”

Entrevista a Nuno Rebelo de Sousa, Presidente da Câmara Portuguesa de Comércio de São Paulo

Lucas Agrela*, Jornalista da Exame Brasil

Filho do atual presidente de Portugal, Nuno Rebelo de Sousa é presidente da Câmara Portuguesa de Comércio de São Paulo, presidiu a Federação das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil de 2016 a 2020 e é diretor da FIESP PMEs e Startups. Nuno auxilia empresas que buscam entrar no mercado brasileiro e atingir o sucesso nos negócios, apesar de desafios como a falta de estímulos governamentais, sua extensão continental e inerente desafio logístico e o câmbio instável.

Para Nuno, há oportunidades para empresas brasileiras em Portugal, onde há benefícios para profissionais de tecnologia e ‘startups’. Mas, para entrar no Brasil, as empresas e ‘startups’ portuguesas precisam chegar com investimentos e visão de longo prazo.

O que as empresas e as ‘startups’ brasileiras têm a ganhar em levar negócios para Portugal?

Primeiramente, o acesso ao mercado europeu. Das 3.500 ‘startups’ que existem em Portugal, 80% delas são estrangeiras. O governo criou incentivos como o Startup Visa, um visto rápido para empreendedores. O programa Startup Portugal, do governo, organiza o ecossistema em regiões setoriais para facilitar os negócios. Para ‘startups’ que precisam de ajuda para crescer, há o Startup Voucher, um benefício concedido mediante o cumprimento de algumas condições. Outra vantagem para empreendedores é que o país tem grande facilidade regulatória para atuação internacional.

Há benefícios para empresas portuguesas virem ao Brasil?

O Brasil não dá benefícios. O custo logístico e a distribuição de produtos são algumas das principais complicações. As empresas que vêm ao Brasil buscam um mercado gigante, mas precisam entender que devem decidir atuar em uma das regiões do país. Mesmo os maiores distribuidores portugueses, como Andorinha e Gallo, têm mercados no Brasil onde não conseguem atuar. Foi preciso fazer adaptações e parcerias para avançar no mercado brasileiro.

Casa Araújo Pinto, nova sede da Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil

Quais são os principais desafios para empresas portuguesas no Brasil?

Exceto por Salvador, produtos portugueses têm dificuldade de entrar nos portos do nordeste brasileiro. O vinho de 5 euros que entra por Santos por 120 reais, chega ao nordeste custando 200 reais, em razão do custo logístico. Temos tratado do tema com o Ceará para mudar a situação. Em termos regulatórios, não há nada que atraia uma PME para o Brasil. Os programas estaduais e federais do Brasil para empresas não conversam uns com os outros e a iniciativa privada tem seus próprios programas.

A maioria dos brasileiros que vão viver em Portugal criam empresas ou ‘startups’?

Não. Muitos têm a fonte de renda no Brasil. Outros fazem negócios com imóveis. Mas a grande maioria que abriu negócio foi no ramo industrial. Na área de startups, a maioria é a de ‘fintechs’. Mais de 50 ‘startups’ brasileiras entraram nesse ramo nos últimos anos em Portugal.

O número de vistos de brasileiros para Portugal caiu durante a pandemia?

Não diminuiu, nem caiu o volume de vendas de imóveis para brasileiros. O turismo caiu, claro. Mas há quem tenha se mudado para Portugal e mantido o emprego que tinha no Brasil, trabalhando remotamente.

Há programas de atração de talentos de tecnologia para Portugal?

O principal é o Tech Visa. Com o ecossistema de ‘startups’, empresas que começaram a ir para Portugal para desenvolver produtos e faltavam profissionais qualificados. Com Tech Visa, pessoas que sejam de fora da Europa e tenham formação e dois anos de experiência no mercado de tecnologia podem ganhar visto. Dos primeiros mil emitidos, 90% eram brasileiros.

“EXCETO POR SALVADOR,
PRODUTOS PORTUGUESES
TÊM DIFICULDADE DE ENTRAR
NOS PORTOS DO NORDESTE BRASILEIRO.”

Em quais setores há oportunidades para brasileiros em Portugal atualmente?

Nos setores de tecnologia imobiliária, saúde, engenharia, advocacia e agronegócio. Na saúde, o profissional ainda precisa refazer um curso de especialização para atuar fora do seu país de origem, o que é um entrave. Nos últimos anos, Portugal investiu muito no agronegócio, especialmente na agricultura de precisão. O agronegócio brasileiro é muito grande, mas ele não diversifica o risco apostando em outros países.

Como as empresas e ‘startups’ podem vir de Portugal para o Brasil?

Elas podem contar com a Federação das Câmaras Portuguesas de Comércio. Entendemos o negócio e indicamos quem devem ser os parceiros e ainda tentamos viabilizar as primeiras vendas. Explicamos que o mercado do Brasil é de longo prazo e, por isso, é preciso ter investimento. Mostramos que o negócio precisa de planejamento e parcerias. Há um desafio de entrar no Brasil em razão do câmbio mais fraco do que o europeu. Por isso, seria importante estabilizar o câmbio do Brasil para facilitar a entrada de empresas no país. A mão de obra brasileira está barata, o que é bom para empresas estrangeiras e pode ser bom para o Brasil.

Como seria possível melhorar as relações comerciais entre Brasil e Portugal?

Seria importante os dois países serem mais próximos. É importante que o presidente brasileiro e ministros façam mais visitas oficiais a Portugal. O acordo Mercosul também tem que ser fechado. Todos os incentivos serão graduais, mas será muito bom conseguir coroar isso ainda em 2021.

*Texto escrito na língua de origem do autor

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