Terça-feira, Agosto 16, 2022

Empresas familiares: uma dimensão holística

Luís Parreirão, Administrador da Mota-Engil

Desde que há empresas que existem empresas familiares (EF).

O que é, então, novo?

Novo é o tratamento autónomo, com metodologias próprias, desta realidade antiga. Uma abordagem que junta os diversos saberes relevantes para conhecer a pluridimensionalidade desta realidade.

Às dimensões habituais juntam-se abordagens novas, frequentemente determinantes. Da psicologia à ‘governance’ das famílias, do direito da família à responsabilidade social e à vocação de cada família, do planeamento de longo prazo às regras de formação e educação das novas gerações.

Uma empresa é familiar quando uma parte essencial do seu capital está na titularidade de uma família e essa família seja decisiva na sua administração. É também essencial que a relação da família com a empresa tenha uma vocação de continuidade e uma perspectiva de sucessão e transmissão multigeracional da propriedade.

Em Portugal, as EF representam cerca de 70% das empresas e cerca de 65% do PIB, respondendo por 50% do emprego.

Apesar da grande maioria das PMEs serem EF, é um lapso grave entender que EF e PMEs são sinónimos. Em Portugal, as EF representam 40% do PSI 20.

As EF são, assim, de uma relevância socioeconómica inquestionável.

Mas são, também, uma realidade complexa, que, na pluralidade das dimensões individuais, convoca um conjunto de questões que lhes são específicas em várias dimensões.

Reflictamos sobre algumas delas: os conflitos entre sócios continuam a ser entre sócios ou ganham novas dimensões porque entre irmãos, primos ou pais e filhos? As decisões sobre pessoas fundam-se no mérito ou nas preferências individuais? Os gestores, nas suas decisões, são dominados pelos afectos ou pela razão?

Regista-se hoje, como se sabe, um aumento muito significativo da esperança de vida, com a consequente permanência na vida activa até bastante mais tarde. As novas gerações estarão disponíveis para esperar até mais tarde? Quantos estarão disponíveis para conviver com a “síndrome do Príncipe Carlos”? Será que optam por desenvolver uma actividade profissional fora da empresa familiar?

As EF são hoje confrontadas com novas realidades, novas abordagens, mais globais, com uma muito maior exigência de plasticidade, de capacidade de olhar e compreender o fenómeno no seu conjunto, apelando a várias áreas do conhecimento e a técnicas diferenciadas.

Nestes tempos de incerteza(s), às EF impõe-se um mais forte, e mais flexível, planeamento estratégico, para si próprias e para a(s) família(s) accionista(s).

Impõe-se agora, e cada vez mais no futuro, uma abordagem holística que transforme as várias vertentes do fenómeno numa realidade integrada e coerente.

Respondendo às novas preocupações, as famílias empresárias têm vindo a adoptar um conjunto de instrumentos normativos e organizacionais, dos quais destacamos: a celebração de protocolos familiares, a aprovação de regras de ‘governance’ diferenciadas para as famílias e para as empresas, a criação de ‘family offices’.

É assim que vemos hoje surgir, e com crescente relevância nos mercados, poderosos ‘family offices’, muitos deles actuando à escala global, e com uma capacidade de investimento que, tradicionalmente, só reconhecíamos aos bancos.

Às EF, começam a suceder famílias empresárias.

Diga-se, por último, que não é possível abordar as questões relativas às EF recorrendo exclusivamente a uma técnica ou a um ramo do saber. Antes faz apelo a uma pluralidade de áreas, não sendo fácil identificar uma como dominante.

As EF, tal como as famílias e os seres humanos que as compõem, só são compreensíveis numa abordagem holística, em que cada uma das partes só se compreende a partir do todo.

Desafio que a actual pandemia e, sobretudo, o Plano de Investimentos que se lhe segue vão colocar à prova e que é necessário vencer. 

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