Sexta-feira, Setembro 24, 2021

Eleições Presidenciais Estados Unidos 2020: O que está para vir?

Vasco Rato, Professor Universitário

A eleição presidencial nos Estados Unidos em 2020 será realizada no próximo dia 3 de Novembro. Biden e Trump são os candidatos presidenciais na 59ª eleição presidencial do país.

As eleições presidenciais americanas despertam invariavelmente grande parte das atenções em todo o mundo. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos da América foram catapultados para um papel proeminente nas questões internacionais, as orientações da política externa do país tiveram amplas consequências noutros países. As eleições presidenciais de 2020 não são, obviamente, uma excepção a essa regra, sobretudo se tivermos em conta que os Estados Unidos da América enfrentam actualmente desafios mais prementes do que em qualquer outro período da sua história desde finais da década de 1940.

Até há bem pouco tempo, o consenso interno e bipartidário em matéria de política externa fazia com que a estratégia global dos Estados Unidos fosse bastante previsível. A ameaça existencial representada pela União Soviética fazia com que a preservação das alianças militares dos EUA e os amplos compromissos internacionais simplesmente não fossem compatíveis com mudanças políticas radicais. As diferenças nos estilos de liderança presidencial e nas agendas internas eram constantes e, por vezes, profundas. No entanto, os contornos das orientações em matéria de política externa dos Estados Unidos da América foram moldados pelas exigências estruturais da Guerra Fria.

Após a dissolução da União Soviética e a consolidação da “reforma e abertura” de Deng Xiaoping, um novo consenso bipartidário ganharia forma durante a presidência de Bill Clinton. Desde então, os EUA empenharam-se no sentido da expansão da ordem liberal por via da promoção do mercado livre e da democracia política. Como corolário disso, a China transformar-se-ia num actor responsável por via da sua adesão à Organização Mundial do Comércio e plena incorporação na economia mundial. A interdependência gerada pelo comércio global baseado em cadeias de abastecimento interligadas empurraria, conquanto o consenso em matéria de política externa se mantivesse, Pequim para mais reformas e democratização política. O resultado seria um sistema internacional mais pacífico e a preservação da ordem liberal internacional liderada pelos americanos.

No entanto, com os democratas e republicanos a perseguirem agendas políticas cada vez mais divergentes, tanto a nível interno como externo, o consenso bipartidário desgastar-se-
-ia e os EUA assistiram assim ao início de uma polarização política acentuada e de conflito partidário. Mas seria errado sugerir que Trump é a causa da radicalização política do país. Na verdade, a vitória de Trump sobre Hillary Clinton em 2016 foi em si uma consequência da tribalização da política dos EUA, gerada pelos efeitos da globalização. Grandes sectores da sociedade americana viveram a globalização sob a forma de desindustrialização, com o desemprego e o esvaziamento das comunidades daí resultante. Como seria de esperar, o resultado foi uma reacção contra o comércio livre e, em particular, contra as práticas comerciais chinesas. Ao mesmo tempo, o predomínio das redes sociais e a concomitante erosão da influência dos media tradicionais radicalizaram ainda mais o discurso político e aumentaram a distância entre os dois principais partidos do país. Todos esses factores levaram a uma rejeição das elites políticas e culturais do país. O populismo de Donald Trump mobilizaria sectores do eleitorado que chegaram à conclusão de que o “pântano”, o ‘establishment’, falhou para com o trabalhador americano comum.

A vitória de Donald Trump em 2016 deitou por terra o consenso em matéria de política externa e colocou o país num novo rumo em matéria de questões internacionais. De notar, contudo que não foi Trump que provocou essa mudança; Trump respondeu sim às mudanças estruturais que estavam a ocorrer no sistema internacional. Durante a campanha de 2016, o candidato republicano foi claro ao sugerir que o ‘establishment’ da política externa falhara com o país. O papel dos Estados Unidos no mundo teve, portanto, de sofrer mudanças profundas por forma a ser mais sensível aos interesses e preocupações do país profundo. A classe trabalhadora norte-americana, os deploráveis de Hillary Clinton, foram os principais perdedores do processo de globalização e da emergência da China como grande potência. Como resultado lógico, tornou-se necessário formular uma nova política que colocasse o interesse nacional dos Estados Unidos no centro das prioridades do país. Para reverter o declínio dos EUA, a agenda política da “América em Primeiro Lugar” visava assim renovar o relacionamento com a China e, também, com os aliados tradicionais de Washington, incluindo a Europa.

Em 2020, o sistema internacional está em profunda mutação numa altura em que a ordem liberal enfrenta o desafio aberto da Rússia e da China, duas potências revisionistas determinadas a porem fim à proeminência americana. Administrar a nova correlação internacional de forças e desenvolver uma grande estratégia capaz de assegurar a manutenção dos interesses nacionais dos Estados Unidos será uma tarefa fundamental do próximo presidente. No entanto, e independentemente do vencedor das eleições de Novembro de 2020, Washington não pode regressar às amplas preferências políticas das últimas décadas. Essas soluções já não são viáveis. Em termos gerais, a política externa de Trump, especialmente no que toca ao comércio e à China, será continuada pelo próximo presidente. A visão europeia que postula um “regresso à normalidade” quando Trump abandonar a Casa Branca não é sustentável, portanto. O populismo, que prevalece agora tanto na esquerda como na direita americana, é uma resposta ao fracasso das políticas e às incertezas quanto ao papel do país no mundo. Em suma, não se antevê um regresso ao amplo consenso que sustentou a política americana, interna e externa durante a segunda metade do século XX. Trump não é uma anomalia; é o sinal do que está para vir.

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