Quinta-feira, Fevereiro 2, 2023

No Brasil, a vitória da democracia e das minorias

Lula durante o discurso de vitoria das eleições em São Paulo no dia 30 de outubro de 2022

Bruno Rosa, Correspondente PRÉMIO no Brasil

Dia 30 de outubro de 2022. Foi um domingo de suspense. Nas ruas de todo o Brasil, a tensão estava no ar com os ânimos acirrados e os nervos a flor da pele. Em uma das eleições mais disputadas do Brasil desde o processo de redemocratização no fim dos anos 1980, o resultado da eleição no país só foi decidido aos quase 99% das urnas apuradas, tamanho o nível de acirramento político e social.
Eram exatamente 19h57, com 98,81% das urnas apuradas, quando a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva foi matematicamente definida e anunciada. No resultado final, Lula foi eleito com 50,90% dos votos, em um pleito apertado contra o atual presidente Jair Bolsonaro, com 49,10%.
Um país dividido, mas cheio de feitos históricos: pela primeira vez, um ex-presidente é reeleito democraticamente para um terceiro mandato; por outro lado; também de forma inédita, um presidente no cargo não se reelege. O volume de votos brancos, nulos e abstenções foram as mais baixas de toda a história do país.
Foi assim que o Brasil foi às urnas eletrônicas, tão questionadas por infundadas denúncias de fraude da atual gestão. O cenário eleitoral em 2022 foi desafiador: Uma avalanche de ‘fake news’ tomou conta das redes sociais, nunca o assédio eleitoral de empresas foi tão elevado, com patrões obrigando funcionários a votar em determinado candidato, e dezenas de denúncias de policiais rodoviários tentando impedir a votação ao longo do domingo. No fim do dia, a maior parte sociedade deu seu recado: chegou a hora de mudar.
Já em seu discurso de presidente eleito, Lula falou algo simbólico: “Não existem dois Brasis. Somo um único país, um único povo, uma grande nação”. Do outro lado, Bolsonaro mostrou que, mesmo tendo todo o aparato do Estado a seu favor, capaz de reduzir o preço dos combustíveis e elevar o valor da ajuda social à população de baixa renda- chamado de Auxílio Brasil -, não conseguiu o impulso que precisava na reta final. Perdeu.
Lula mandou também outro recado importante para quem defendia o flerte autoritário de Bolsonaro, com críticas constantes ao Supremo Tribunal Federal. “A Constituição rege a nossa existência coletiva, e ninguém, absolutamente ninguém, está acima dela, ninguém tem o direito de ignorá-la ou de afrontá-la”. Assim, a democracia no Brasil ganha uma nova chance após episódios polêmicos, quando uma ministra de Direitos Humanos vaza dados de uma menor estuprada, um ministro do Meio Ambiente que defende o afrouxamento regulatório de preservação do meio ambiente e um ministro da Saúde que defende remédios ineficazes para o combater a Covid.
A resposta veio já poucas horas depois. Os principais líderes reconheceram a vitória. Joe Biden, presidente dos EUA, deu os parabéns 40 minutos após o resultado oficial das eleições no Brasil. A Noruega, até então um importante parceiro na preservação da floresta amazônica, disse já na segunda-feira (31) que está disposto a restaurar o diálogo. O presidente da Argentina desembarcou no dia seguinte à votação em São Paulo para pessoalmente parabenizar Lula.
O discurso de vitória de Lula foi interpretado já como um discurso de posse para tentar afastar qualquer tipo de questionamento por Bolsonaro e seus aliados, um temor de empresários e analistas do mercado financeiro. Não por acaso Lula já mandou seu recado: “Vamos reconquistar a credibilidade, a previsibilidade e a estabilidade do país, para que os investidores – nacionais e estrangeiros – retomem a confiança no Brasil”.
Mas não foi a vitória do Lula ou de seu partido, o PT. Foi a demonstração da força na democracia do país. Foi também uma mensagem das minorias no Brasil, da população parda, das mulheres e dos indígenas, para citar apenas alguns exemplos de quem foi constantemente atacado durante os últimos anos. Foi também a mensagem de quem defende o meio ambiente, tão citado por Lula em seu discurso de posse e aclamado por líderes globais.
Mas há desafios já no curto prazo. O temor agora do mercado financeiro é justamente com o processo de transição, já que a posse no Brasil é no dia 1 de janeiro. Caminhoneiros, simpatizantes ao governo de Bolsonaro, começaram a semana fazendo barricadas com pneus em todo o país, como forma de protesto. Ações de empresas estatais abriram a segunda-feira no mercado de ações em forte queda.
E mais de 17 horas após o resultado, Bolsonaro ainda não se pronunciou. Após a derrota, no domingo de noite, Bolsonaro se isolou em sua residência oficial em Brasília, na capital do Brasil. No mesmo momento, aos apoiadores na Avenida Paulista, em São Paulo, Lula mostrou preocupação com a transição até dezembro.
Na capital, Lula vai ter um Congresso mais ao Centro e à direita, o que vai trazer um enorme desafio de negociação. O presidente eleito quer priorizar o combate à fome, ao racismo, à violência contra mulher e à preservação ao meio ambiente. Mas essa agenda conta ainda com o risco de recessão iminente. Por aqui, há os juros altos, a inflação resistente, além da bomba fiscal e a miséria crescentes. Os próximos meses podem dar o tom do que esperar a partir de 2023.

(Texto escrito na língua de origem do autor)

Crédito Fotografia: Divulgação / PT

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