Sexta-feira, Maio 20, 2022

Criar um ciclo quebrando o ciclo

Pedro Cativelos, Director Executivo da Media4Development

Dizem-nos as notícias que estamos, todos, a entrar num novo ciclo. Foi necessário a pandemia acelerar como nunca para, porventura, acabar para sempre enquanto tal, tornando-se endémica no mundo como um todo, e também em Moçambique. Mas as cicatrizes, sejam elas económicas, sociais ou humanas permanecerão e, como não poderia deixar de ser, deixarão a sua marca. A este nível, o novo normal assemelha-se bastante com a mais antiga casualidade – a de quem tem mais, conseguir lidar melhor com as circunstâncias desafiantes, especialmente em épocas em que há menos – e o seu exacto inverso.

Num ano de 2022 que será marcado por inflação, aumento dos combustíveis e de preços da logística (todos interligados e a compactuarem entre si), há vencedores que lutam e lutadores que perdem.

Quem detém, pertence ao primeiro grupo. Quem não tem, luta, e sem grande aventureirismo de prognóstico, deverá continuar a ter de lutar, mantendo-se na segunda, terceira ou quarta divisões económicas do planeta, onde estão aqueles que encaram o desafio da sobrevivência como apenas mais um grau da existência económica, até que chegue 2023, e o ano seguinte (e o seguinte e por aí fora, numa escada temporal degenerativa que nada tem de regenerativa). Quem tem mais degraus para subir, sabe, na dureza do dia-a-dia, a que distância vai o grupo da frente, mas não vê como lá chegar. Costuma dizer-se que dar um passo atrás pode ser bom, para ganhar balanço para os dois seguintes para a frente, mas o que o mundo nos ensina, quando lemos as notícias, é que, como tantas vezes na vida, os passos que temos de dar não são todos iguais nem valem todos o mesmo.

O que vale é que, na maioria dos chamados países em gerúndio desenvolvimento, que ocupam mais de três quartos do mundo, este atravessar de mais um ano em direcção a mais outra travessia um tanto ou quanto parecida com a do ano anterior, já não é grande novidade. Daí que, para se abandonar este ciclo vicioso de pobreza a que se junta, em muitos casos, o sobreendividamento externo que só protela o problema, agravando-o, tenha de haver um plano de saída. De uma realidade, e de entrada numa nova.

No caso de Moçambique, e sem tal existir de forma agregada, essa visão passa por, em traços genéricos, aguardar pelo início da exploração de gás em Cabo Delgado que, pela primeira vez na História, dará real músculo financeiro ao país para poder crescer a dois dígitos e, enquanto ela não inicia na sua força máxima, conseguir elevar os fracos índices de competitividade do principal sector contributivo para o PIB, a agricultura, transformando-a em negócio, potenciar o crescimento de PME, industrializar, descentralizar, bancarizar, formalizar e melhorar as vias de acesso, fomentar as plataformas logísticas, exponenciar a rede energética nacional e não deixar morrer o turismo.

Uma vez mais, estão todas relacionadas, por razões óbvias. Mas fazer tudo isto, com um PIB anual a rondar os 14 mil milhões de dólares não só é desafiante, como, na verdade, será bem mais do que isso. E a verdade, contestando-se ou não o ritmo a que isto está a ser feito, por quem, e com que méritos, é que há sinais encorajadores em todas estas áreas.

Até que os primeiros influxos provenientes da exploração de gás comecem a impactar todas estas áreas de actividade (a previsão aponta para o final da década) nos próximos quatro anos terá de existir um tecido empresarial local (nomeadamente as PME) minimamente edificado para que, de entre esses milhares de empresas e pequenos empresários, alguns haja que possam, de facto, navegar a torrente que se ouve ao longe aproximar, e florescer quando ela chegar.

Se estiverem frágeis em demasia, não terão hipótese face ao caudal. Daí que seja fundamental a capacitação de pessoas e empresas, a todos os níveis, para que comecem a crescer agora as primeiras raízes que as irão agarrar ao Futuro, quando ele se fizer presente, e fazer reter algum do valor, em termos de capital financeiro e humano, que irá circular. Criar um ciclo novo dará tanto trabalho como repetir, vezes sem conta, um ciclo antigo.

E como com todas as pessoas quando mudam de vida, haverá novos desafios e dificuldades, sim, mas é a única forma de mudar para não continuar a nadar em busca de salvamento, só para, logo a seguir, continuar a lutar para não se afundar.

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