Terça-feira, Agosto 16, 2022

Cesária Évora: A Diva nem alegre nem triste que levou a “morna” ao mundo

Ricardo David Lopes

Representava de alguma forma “a noção de ser cabo-verdiano”, nas palavras de José Carlos Fonseca, presidente de Cabo Verde à data da morte de Cesária Évora, no dia 17 de Dezembro de 2011, aos 70 anos de idade. Cize, como também era conhecida, cedo foi aclamada como a Rainha da Morna no Mindelo, onde nasceu e deu os primeiros passos como intérprete.

Cantou com o irmão na praça principal da cidade onde cresceu, e foi ganhando notoriedade. Aos 16 anos, cantou em bares e eventos, onde encantava as audiências, maiores ou menores, na capital de São Vicente, a ilha onde passeava e cantava descalça, uma tradição que manteve e que viria a dar nome a um álbum, em 1988.

Pela vida da que viria a ser chamada precisamente como Diva dos Pés Descalços, passaram então nomes como o do compositor cabo-verdiano B. Leza, ou do igualmente compositor Gregório Gonçalves, e aos 20 anos, actuando para a “Congelo” (companhia de pescas de origem portuguesa), começou a ser remunerada pela sua arte.

A independência do arquipélago, em 1975, leva-a a abandonar os palcos e, mais tarde, o seu país, em 1985, após ter sido escolhida pela Organização das Mulheres de Cabo Verde como uma de quatro cantoras a figurar no álbum “Mudjer”.

Bana, cantor e empresário cabo-verdiano radicado em Portugal chamou-a a este país, onde Cesária voltou aos palcos e conheceu José da Silva, outro cabo-verdiano radicado em França e que seria o seu agente ao longo de toda a carreira. Levou-a a actuar em Paris, onde gravou “La Diva aux pieds nus”.

Seguiu-se “Miss Perfumado”, em 1992, que consagra o início, aos 47 anos de idade, de uma carreira internacional ímpar e reconhecida, ao longo da qual gravaria 24 álbuns e faria dezenas de duetos com músicos de Angola ao Brasil, passando por Cabo Verde, Cuba, Espanha, EUA, França, Grécia, Itália, Mali, México, Polónia, Senegal e Sérvia.

Em 2004, a cabo-verdiana mais conhecida do mundo arrecada o “Grammy de Melhor Álbum World Music Contemporânea” com “Voz d’Amor” e mais tarde, em 2007, a ministra da Cultura francesa Christine Albanel, entrega à cantora as insígnias da Legião de Honra.

Em Cabo Verde, recebeu o prémio carreira na gala dos “Cabo Verde Music Awards”, em 2011, mas a “embaixadora da morna”, como também fica para a história, já havia sido agraciada com as mais altas condecorações. Em Portugal, em 1996, recebe a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique; em França, por duas vezes recebeu o galardão “Les Victoires de la Musique” para Melhor Álbum de “World Music” (em 2000, pelo álbum “Café Atlântico” e, em 2004, pelo álbum “Voz d’Amor” – o mesmo que lhe deu o Grammy. Em 2010, no Rio de Janeiro, Lula da Silva condecorou-a com a medalha de Ordem do Mérito Cultural 2010.

A título póstumo, foi homenageada com uma estátua no Aeroporto de São Vicente, que a partir de Março de 2012, passa a designar-se Aeroporto Internacional Cesária Évora.

Morreu três meses após anunciar o fim da carreira, na sua terra natal, na sequência de complicações respiratórias e cardíacas graves. Terá dito um dia: “Posso não ser muito alegre, mas triste também não sou. A alegria e a tristeza são vizinhas. Não sou de vestir máscaras, nem nada disso, mas gosto de ver as pessoas a dançar”.

Assim continuaremos a fazer, Cize.

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