Sexta-feira, Setembro 24, 2021

As prioridades do Presidente

James Astill, Editor do The Economist acreditado em Washington e Colunista

O próximo ano será um ano de grandes melhorias após o péssimo mandato do seu antecessor. O país foi afectado por uma série de escândalos e desastres tal em 2020 que, quando os eleitores afluíram às urnas, quase não se falava do julgamento de ‘impeachment’ de Donald Trump dez meses antes. Um quarto de milhão de americanos morreu de Covid-19. E perderam-se mais de 10 milhões de empregos. As feridas raciais vindas a público com os protestos do movimento Black Lives Matter – os maiores da história americana – seriam inflamados pela disputa racial alimentada pelo presidente. A recusa de Trump em aceitar o resultado das eleições pôs em causa a própria democracia do país.

Muitos desses problemas transitarão para 2021. A economia continuará tremida enquanto o vírus andar desenfreado por aí. A desconfiança em relação ao processo eleitoral que Trump encorajou entre seus partidários far-se-á sentir durante muito tempo. No entanto, o simples facto de ter sido afastado da Casa Branca – tornando-se o quarto presidente num século a não conseguir assegurar um segundo mandato – alterou as perspectivas dos Estados Unidos de gerirem os seus problemas. Trump viu o Covid-19 como um problema de comunicação e irrelevante. Viu nas divisões raciais da América uma oportunidade política. Em Joe Biden, a América terá um presidente competente, que respeita o conhecimento e está empenhado em unir as pessoas.

Biden assinalará isso mesmo com uma leva de acções executivas. Cancelará a retirada do Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde, voltará a aderir ao acordo climático de Paris e restabelecerá a protecção do governo Obama aos imigrantes ilegais trazidos para os Estados Unidos em criança. E porá fim à proibição de Trump a viajantes de alguns países de maioria muçulmana. Biden terminará a política do seu antecessor de separar crianças migrantes ilegais de seus pais e lançará uma missão com vista a encontrar os pais desaparecidos de 545 crianças migrantes sob custódia das autoridades. E decretará obrigatório o uso de máscara a nível nacional.

A sua administração tomará também medidas rápidas no sentido de reconstruir as instituições americanas seriamente afectadas por Trump. Voltará a colocar cientistas credíveis nos seus cargos na Agência de Protecção do Ambiente e reintroduzirá medidas para proteger a independência do Departamento de Justiça. A secretária de Estado de Biden terá de restaurar a confiança e repor a ordem no corpo diplomático dos Estados Unidos e no que toca às suas alianças após toda uma série de abusos.

Essas medidas terão um significado acrescido perante a incapacidade dos democratas de conquistarem a maioria no Senado em Novembro. É improvável que venham a conseguir corrigir isso com uma vitória nas eleições extraordinárias para o Senado que terão lugar na Geórgia no início de Janeiro. Isso significa que Biden não conseguirá aprovar todas as políticas económicas, de saúde, climáticas e tributárias que prometeu. Uma das suas primeiras prioridades foi a aprovação de um amplo pacote de estímulo económico de 2 biliões de dólares, incluindo investimentos em infraestruturas verdes e outras. Conseguir a aprovação de um pacote de estímulo muito mais reduzido perante um Senado liderado pelo líder republicano veterano Mitch McConnell constituirá um verdadeiro desafio.

McConnell tentará negar ao governo Biden quaisquer vitórias e restabelecer a reputação de conservadorismo fiscal do seu partido (um dogma que parece preocupar apenas os legisladores da oposição), com o objectivo de obter dividendos para as eleições intercalares em 2022. Bloqueado no Capitólio, Biden terá que tomar medidas executivas mais ambiciosas para conseguir progressos em casa, como aconteceu com os governos de Obama nos quais serviu. Espera-se que imponha mais restrições à poluição de centrais a carvão e gás – embora não seja claro se tais medidas sobreviverão ao escrutínio de uma maioria conservadora cada vez mais activista na bancada do Supremo Tribunal.

No que toca às relações externas, o novo governo representará uma mudança dramática de tom em relação ao seu antecessor – e mais continuidade do que muitos esperam. Biden acalmará os aliados tradicionais da América e restaurará a liderança americana nos esforços multinacionais para conter as alterações climáticas, a agressão russa e o programa nuclear iraniano. Mas manterá a postura adversária do governo Trump em relação à China e algumas das suas tarifas. Vai desacelerar, mas não reverter, a retirada da América do Afeganistão. E nessa alteração crescente de foco do oeste para leste por parte da América – que Biden não interromperá – os velhos aliados podem detetar aí mais do que um indício do estilo transacional de Trump.

Apesar das restrições aos seus poderes, 2021 pode ser bom para Biden. Tudo dependerá da capacidade da sua administração de disponibilizar rapidamente uma vacina para a Covid-19 para todos. Se tudo correr bem, a economia recuperará rapidamente o terreno perdido e a popularidade de Biden aumentará. Caso contrário, a esperança conquistada com o fim do desgoverno de Trump dissipar-se-á rapidamente – beneficiando assim o ex-presidente.

E outra grande questão para o ano que agora começa reside em saber até que ponto Trump se afastará da vida pública. Membros do ‘establishment’ republicano temem que, ao continuar a pairar sobre o partido derrotado no Twitter e na televisão, Trump possa vir a ser um entrave a uma reforma do partido. Receios estes que podem materializar-se.

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