Sexta-feira, Setembro 24, 2021

As empresas portuguesas daqui a 15 anos

António SaraivaPresidente da CIP - Confederação Empresarial de Portugal

Dentro de quinze anos, a generalidade das empresas portuguesas terá passado pela fase da sua consciencialização para as oportunidades abertas pelas novas tecnologias (nomeadamente digitais), tê-las-á desenvolvido e adaptado à sua realidade, em paralelo com os seus recursos humanos, e estaremos em pleno na fase da massificação da adoção dessas tecnologias pelos agentes económicos.

Cada vez mais empresas terão integrado nos seus processos de produção e nos próprios produtos toda uma panóplia de componentes com capacidade digital em conexão com outros componentes e computadores. A combinação destes componentes com a análise avançada de uma enorme quantidade de dados terá reduzido o consumo de energia e matérias-primas e proporcionado cadeias de produção mais flexíveis, uma produção mais eficiente e uma resposta cada vez mais automatizada e sincronizada face às solicitações dos mercados. 

Estes desenvolvimentos terão permitido a criação de novas formas de identificar grupos específicos e, consequentemente, a diferenciação do ‘marketing’ aplicado e a diferenciação dos produtos, respondendo às tendências dos consumidores, ávidos por adquirirem produtos únicos.

As empresas da indústria transformadora estarão cada vez menos limitadas a atividades de produção, comprando, produzindo, vendendo e exportando cada vez mais serviços, por forma a proporcionar ao cliente soluções personalizadas.

De uma era de produção em massa indiferenciada estaremos a passar para uma era de personalização e especialização.

Cada vez mais empresas estarão a “misturar tecnologias” como a impressão 3D, as tecnologias móveis, o ‘cloud computing’, a realidade aumentada, etc. 

Com a utilização mais intensiva das tecnologias da informação, comunicação e localização, bem como da robótica, muitas funções que hoje estão presentes nas empresas ter-se-ão tornado dispensáveis ou obsoletas, ao mesmo tempo que terão surgido outras, com um nível de exigência superior em termos de conhecimentos e competências.

As empresas industriais terão cada vez mais as suas atividades alicerçadas na economia circular. Este desenvolvimento terá introduzido transformações importantes no ciclo de vida dos produtos. As empresas terão reinventado novos métodos de criação de bens para reincorporar matérias já fora de uso e relançar na economia aquilo que, ainda hoje, é desperdício. Terá surgido um mercado funcional para matérias-primas secundárias, à escala europeia, com legislação harmonizada.

Além disso, as empresas estarão libertas de uma série de condicionalismos que hoje levam ao desperdício de recursos e ocupam boa parte do precioso tempo dos seus gestores, preocupados em ultrapassar problemas laterais colocados por uma inadequada intervenção do Estado na sua atividade quotidiana.

As empresas estarão preocupadas sobretudo em concorrer cada vez mais com base em aumentos da produtividade, através de uma forte aposta na inovação, na organização e na capacidade de gestão.

Terão diversificado as suas exportações, explorando as múltiplas oportunidades de negócio que se abrem nas economias emergentes.

Apesar de integrado na Europa, Portugal estará menos dependente dos mercados de economias maduras, mas pouco dinâmicas.

Não sei quais serão os setores que mais peso terão ganho na nossa estrutura produtiva e na estrutura das nossas exportações. Mas a canalização dos recursos disponíveis para investimentos indutores de exportações ou substituição competitiva de importações terão determinado o reforço do peso dos setores produtores de bens e serviços transacionáveis na economia.

Será este o futuro das empresas dentro de quinze anos?

Certamente que não o posso afirmar.

Dizia um especialista em prospetiva que toda a forma de predição do futuro é uma impostura, porque o futuro não está escrito, é necessário construí-lo.

Um cem número de fatores, internos e externos, mais ou menos controláveis, poderão retardar ou mesmo travar os desenvolvimentos positivos subjacente a este cenário. Alguns, poderão conduzir a bloqueios indesejáveis, a desequilíbrios potencialmente perigosos ou a retrocessos.

O exercício a que brevemente me dediquei baseia-se em tendências, muitas das quais creio serem inelutáveis. Terei esquecido outras, por exemplo a emergência de novos modelos de negócio, nomeadamente de economia partilhada, acompanhando novos hábitos de consumo.

Mas essas são apenas tendências que hoje é possível detetar. Seguramente seremos surpreendidos por novas tendências, que decerto nos abrirão novas oportunidades e novas ameaças.

Além disso, este exercício parte do pressuposto de que, coletivamente, seremos capazes de aproveitar essas oportunidades e superar essas ameaças.

Como em qualquer processo de progresso tecnológico, confrontamo-nos com riscos que têm de ser acautelados.

Destacaria os que se podem verificar ao nível dos mercados de trabalho, devido à intensificação dos movimentos entre setores e atividades.

Isso requer um forte investimento em qualificação. De facto, a falta de recursos humanos qualificados poderá constituir uma das principais barreiras à inovação digital nos próximos anos. Requer também mercados de trabalho flexíveis, que favoreçam a adaptabilidade das empresas a mercados em constante mutação e à adoção de novos processos de aprovisionamento, de produção e de comercialização.

Seja no domínio da qualificação, seja no que respeita às questões laborais, só uma visão de futuro pode transformar em oportunidade para as empresas o desafio da (r)evolução tecnológica.

Para vencer este desafio, é também indispensável que as empresas apostem decisivamente na inovação. Mas para inovar é preciso investir. Só através do investimento será possível incorporar inovação nos produtos e nos processos. Para sustentar elevadas taxas de investimento empresarial, falta-nos vencer os obstáculos que persistem, sobretudo em termos de capitalização das empresas e acesso ao financiamento, mas também em termos do enquadramento fiscal e do ambiente de negócios.

A mudança, mesmo quando nos traz progresso, implica sempre capacidade de antecipação e de adaptação e nem todas as empresas, nem todos os trabalhadores, terão a mesma capacidade de antecipação e de adaptação.

Para minimizar os riscos, importa, por isso, capacitar as empresas e os seus gestores e trabalhadores para a mudança.

Capacitar empresas para os investimentos que este desafio implica. Capacitar os gestores e trabalhadores em termos de qualificações.

O futuro está em aberto. Será moldado por inúmeras tendências, mas dependerá menos de tendências passadas e mais do hoje formos (ou não) capazes de fazer, desde já, para o construir.

A mudança não é uma opção, é inerente ao próprio futuro, e as empresas foram e serão sempre motor da mudança.

Capacitemo-nos, pois, todos, para liderar a mudança e construir o futuro.

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