Quarta-feira, Março 3, 2021

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As chaves para a pandemia

João Maria Condeixa, External & Policy Affairs Manager da Janssen, companhia farmacêutica do grupo Johnson & Johnson

A corrida pela vacina a que estamos a assistir não seria possível sem a ciência, sem anos de contínuo investimento e conhecimento adquirido e sem intensa colaboração, a um nível nunca antes visto. Mas não se trata de uma só corrida. Foram e são um conjunto de corridas e todas elas contra o tempo.

Primeiro, a corrida da investigação básica, a responsável pela descodificação do genoma do vírus SARS-CoV-2. No último dia de Dezembro de 2019 as autoridades chinesas alertaram formalmente a Organização Mundial de Saúde (OMS) para o novo vírus. A 10 de janeiro de 2020, o código genético desse vírus, composto por 30.000 caracteres, estava totalmente descodificado. Até há dez anos a sequenciação genética era morosa e muitíssimo cara. Ainda em 2001, o genoma humano custava mil milhões de dólares a ser descodificado e hoje pode ser feito rapidamente por pouco mais de mil dólares. Foram os fantásticos avanços da sequenciação genética que permitiram descodificar este vírus em tempo recorde e a partir daí começar o desenvolvimento da vacina.

Normalmente o desenvolvimento de uma vacina demora entre 10 a 15 anos. Nesta, como nas anteriores, nenhuns atalhos foram tomados, nem se saltaram etapas, embora tivessem sido quebrados recordes graças às seguintes razões: um gigantesco investimento de recursos financeiros e de recursos humanos, com vastas equipas dedicadas em exclusivo a este tema. Não menos importante, uma enorme colaboração entre companhias farmacêuticas e entre estas e os reguladores e decisores – o mecanismo de “Rolling review” criado pela Agência Europeia do Medicamento (EMA) é disso exemplo. Em vez da EMA esperar pela reunião e submissão de todos os dados produzidos, foram-nos avaliando à medida que os dados iam sendo conhecidos. Era importante levar este processo para futuro.

Igualmente relevante foi o investimento e a experiência adquirida ao longo de décadas com outras pandemias, nomeadamente, o Ébola, o VIH, Zika, SARS-CoV ou MERS. No caso do Ébola, desde o início da pandemia até à entrada em ensaios clínicos de fase I, decorreram 27 anos. No Dengue 39, no Zika foram 9. No SAR-Cov 24 meses e no MERS, em 2014, já só foram precisos 22 meses. Uma melhoria contínua que tem o seu apogeu nesta pandemia com apenas 3 meses percorridos desde o ‘breakout’ até ao início da fase I dos ensaios clínicos.

Em meados de fevereiro deste ano, a OMS registava 21 vacinas em ensaios pré-clínicos. E em meados de dezembro já tinha registados 214 vacinas candidatas, das quais 52 em fase de ensaios clínicos em humanos. Foi uma resposta pronta e uma colaboração intensa entre nações que permitiu este fantástico ganho.

A corrida pelos ensaios clínicos foi igualmente intensa, com inúmeros países a candidatarem-se e um universo sem paralelo de voluntários interessados. Esses ensaios decorreram nas regiões com maior incidência e nos países com melhor histórico de sucesso na realização ágil de ensaios. Portugal, infelizmente, continua a não ser competitivo na atração de ensaios. Há ainda um caminho que importa trilhar para melhorarmos na atração de ensaios clínicos que tanto interessam clinica e financeiramente ao país. Precisamos de equipas hospitalares dedicadas a este tema e maior agilidade na burocracia que a eles obriga se queremos ser parte ativa no futuro, seja em que doença for. Os doentes estão à espera.

Por fim, assistimos a uma corrida de solidariedade também ela digna de registo. Os países europeus foram lestos a formar um fundo para a aquisição de vacinas, prevendo inclusivamente um mecanismo e aquisição de doses para países em vias de desenvolvimento. As grandes nações juntaram-se para garantirem que as mais pobres também teriam acesso à solução. As próprias empresas farmacêuticas, à medida que iam avançando na produção da vacina a seu próprio risco, estabeleceram, na sua grande maioria, que não iriam lucrar durante o período pandémico e algumas fizeram reservas para os países mais pobres – a Johnson & Johnson, por exemplo, doou na semana em que escrevo 500 milhões de doses para os países mais desfavorecidos.

E agora, assistimos à corrida pela vacinação confiantes de que será a luz ao fundo do túnel.

A inovação e a colaboração são a chave desta pandemia. Sem elas, a vacina não chegaria e o impacto mundial sobre o PIB seria de 3,5 triliões de dólares, segundo estudos recentes. E mesmo havendo vacina, se o acesso ficasse apenas reservado aos países produtores ou mais ricos, o impacto económico traduzir-se-ia num decréscimo de cerca de 1,2 triliões de dólares do PIB mundial.

Assim, além do valor acrescentado que a inovação traz para a sociedade, fica também a importância da colaboração na melhoria do acesso à inovação como uma das grandes aprendizagens destes tempos. Seja para esta ou outras doenças, devia ficar para futuro.

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