Sexta-feira, Setembro 24, 2021

A Grande Oportunidade

Pedro Duarte, Presidente do Conselho Estratégico para a Economia Digital da CIP | Quadro Dirigente da Microsoft

O ano 2020 ficará marcado pela pandemia que temos vivido. O seu impacto na economia e no nosso bem-estar ainda não é totalmente evidente, mas não será arriscar muito afirmar que, desde já, está a ter um efeito devastador no desemprego, no crescimento económico, nas desigualdades sociais e até no equilíbrio individual e familiar de cada um.

Proponho, contudo, que olhemos para estes tempos com uma diferente abordagem, mais positiva. Winston Churchill terá afirmado um dia que “nunca se deve desperdiçar uma boa crise…”. É nesse espírito que deveremos enfrentar estes tempos desafiantes.

O ano 2020 é também um ano que ficará marcado pela chamada “aceleração digital”, em que o processo, que já todos sentíamos, de transformação tecnológica (a Quarta Revolução Industrial) sofreu um impulso gigantesco. A generalidade dos estudos publicados mostra-nos que a adoção tecnológica foi massiva, por organizações e indivíduos, nos últimos meses, assim como nos diz que a maioria das empresas está convencida que esta “aceleração digital” será permanente, veio para ficar e não abrandará com o desejável desaparecimento da pandemia.

Há, assim, uma força imparável e irreversível que está a transformar a nossa economia e alguns dos dogmas que tínhamos por adquiridos. É uma mudança estrutural!

Se olharmos para a recente história económica portuguesa, facilmente se conclui que alguns problemas de base têm bloqueado um crescimento sólido e sustentável. Os números são cristalinos: desde o início do século, ou seja, desde a plena adesão à moeda única, Portugal vive algo muito próximo do que poderemos qualificar como uma longa e profunda estagnação. Todos os anseios e esperanças de que a Europa nos ajudaria a impulsionar o País para o seu pelotão da frente foram-se dissipando ano após ano. Pelo contrário, somos recorrentemente ultrapassados pelos Países de Leste que, apesar das décadas destrutivas atrás da cortina de ferro, souberam encontrar o seu trilho de crescimento. Ao contrário de Portugal.

Temos o dever de reconhecer que o nosso modelo de desenvolvimento está a condenar-nos a não crescer e a acumular uma dívida que hipoteca o futuro das próximas gerações, que afasta o capital e o investimento e degrada o ambiente de negócios e as condições de vida dos cidadãos.

Este modelo assente em bens não transacionáveis, em infraestruturas de regime e em grandes (e pequenas) obras públicas terá tido o seu mérito na modernização do País e na dinamização conjuntural de alguns setores económicos. Mas é hoje um modelo esgotado. Trouxe consigo estagnação, endividamento e um peso do Estado que sobrecarrega os portugueses com impostos.

Assim, para podermos inverter esta realidade, temos de começar por reconhecer a necessidade de mudança do paradigma económico. Portugal não vingará se não encontrar a ousadia e a ambição de querer expor-se à concorrência externa. Mesmo que tal signifique prejudicar, no curto prazo, aqueles que vivem sistematicamente de rendas protegidas.

Ora, o atual momento de disrupção é uma excelente oportunidade para esta transformação estrutural. É a hora do foco estratégico do País se concentrar nas empresas inovadoras com capacidade de concorrer no mercado global e com capacidade de integrar as grandes cadeias de valor à escala internacional.

A economia digital, verde e circular é uma economia que assenta em novos conceitos e em novos equilíbrios. Que desafia o ‘status quo’, as rotinas, as tradições… Que tem na inovação o seu farol.

A massificação de novas tecnológicas, como a inteligência artificial, a conectividade 5G, a computação “cloud” ou “quantum”, o “Big Data”, o “blockchain” ou a “Internet of Things”, é uma realidade que se está a afirmar rapidamente. E tudo isto trará como inevitável consequência a necessidade de fazer diferente, fazer melhor todos os dias. Os modelos estáticos com cadeias de valor estáveis e perenes no tempo não serão mais competitivos.

Este é o tempo da inovação, do desafio ao desconhecido e da criatividade que aporta valor.

Para Portugal conseguir dar este salto estruturante precisa de uma mudança cultural, de vontade política e de sentido de liderança. E precisa de estratégia e execução.

Como primeiro passo, urge perceber onde está a base para a construção deste novo modelo económico adaptado à nova realidade emergente. Perceber quais os pilares onde as empresas, organizações e pessoas desenvolverão as suas ideias e os seus negócios.

Há dois eixos onde assentará o sucesso futuro da nossa economia. Em primeiro lugar, na infraestrutura tecnológica. As redes de conetividade, a utilização de plataformas “cloud” e o acesso a dados abertos serão absolutamente críticos para gerar dinâmicas económicas que favoreçam o investimento, a atração de capital, a competitividade e o crescimento.

E em segundo lugar, não menos importante, o capital humano. O nosso País tem hoje das populações menos qualificadas da Europa. Tal é uma gigantesca desvantagem competitiva. Contudo, se olharmos para esta crise como uma oportunidade, poderemos interiorizar que este é o momento certo para requalificarmos as pessoas (no seu sentido mais amplo: na língua inglesa, diríamos ‘skilling’, ‘reskilling’ e ‘upskilling’), seja os desempregados mais estruturais, as vítimas do ‘lockdown’ trazido pela Covid-19, aqueles que ainda estão a formar-se ou ainda aqueles que, estando no ativo, devem renovar competências e aptidões.

Saibamos aproveitar esta oportunidade em prol do nosso futuro.

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