Segunda-feira, Maio 10, 2021

A ‘designer’ que conquistou o mundo

Foto: Pedro Correia da Silva

Entrevista a Nini Andrade Silva

Sofia Rainho

É conhecida como a ‘designer’ de interiores da Madeira, mas Nini Andrade silva gosta de tudo o que tem a ver com a arte e com o processo de criar. Já perdeu a conta aos prémios, nacionais e internacionais, que recebeu com as largas centenas de hotéis que desenhou nos mais variados pontos do mundo. E afirma que o seu ‘hobbie’ é trabalhar.

Nini Andrade Silva é uma das mais prestigiadas ‘designers’ de interiores do mundo, com obras espalhadas por diversos continentes. Nascida no Funchal, licenciou-se no Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing (IADE), em Lisboa, e trabalhou em países como Nova Iorque, África do Sul, Londres, Paris e Dinamarca. A Madeira é a sua grande paixão e orgulha-se de levar a bandeira portuguesa aos quatro cantos do mundo. Defensora do “made in Portugal”, abraçou recentemente mais um desafio – As marcas de Portugal.

Nini Andrade de Silva tem 58 anos e a sua carreira já conta mais de 35 anos. A gargalhada está sempre presente na conversa com a ‘designer’ madeirense e o seu entusiasmo é contagiante. “O meu ‘hobbie’ é trabalhar. (risos) Eu adoro trabalhar”, assume sem hesitações.

Há seis anos concretizou o sonho de inaugurar o seu próprio Design Centre no porto do Funchal, no antigo Forte de Nossa senhora da Conceição, onde hoje trabalham 25 funcionários e onde estão expostos os prémios dos hotéis e outros, bem como as primeiras peças da Garouta do Calhau – uma marca de prestígio inspirada nas pedras da Ilha da Madeira (os calhaus), mas que também deu nome a uma causa social com o objectivo de ajudar os mais vulneráveis.

Reconhecida, a nível nacional e internacional, como a ‘designer’ de interiores da Madeira, Nini Andrade Silva também pinta, faz arranjos florais, desenha jóias, roupa, peças de cerâmica… Mas o que lhe dá mesmo gozo é tudo aquilo que seja criar e, por isso, quando lhe perguntam, não consegue escolher apenas uma destas artes. “Gosto mesmo muito de criar, seja o que for, ter a ideia e criar”, assume a ‘designer’ e explica “se for um quadro ou uma jóia, algo que depende só de mim, consigo ter muito mais liberdade, quando depende do cliente às vezes há uma luta maior e tenho de convencer o meu cliente de que estou certa”. Curiosamente foram os projectos que pode desenvolver com maior liberdade que lhe trouxeram a maior parte dos prémios até hoje.

Nini Andrade Silva já perdeu a conta aos prémios que recebeu. “Todos os anos temos Prémios e já temos muitos. É muito bom porque somos reconhecidos e os prémios trazem-nos mais trabalho”, explica a ‘designer’.

O gosto pela pintura herdou-o do pai. “O meu pai era um verdadeiro artista, pintava e cantava. Eu não sei cantar, infelizmente não tenho voz nenhuma (risos) mas sei pintar desde criança. O meu pai antes de morrer disse-me: Nini, tu és uma artista, nunca deixes de pintar, tu és a minha continuação. E nunca me esqueço disso”, recorda.

Conta que em criança sempre gostou muito de desporto e fazia ‘ballet’, nadava e praticava patinagem, mas agora, diz Nini Andrade Silva entre risos, “o meu desporto na realidade é criar”.

A linha preta ou branca é a sua assinatura e está presente na decoração de muitos hotéis e no seu “design centre”, seja nas carpetes, nas almofadas… “é a linha das estradas, a linha dos aeroportos e é a linha da minha vida”.

Em criança já sonhava ser ‘designer’. “Sempre soube que iria para artes, mas também sempre gostei de ajudar as pessoas e de correr atrás de uma causa para ajudar e gostava muito de ser assistente social”, conta Nini.

Hoje faz as duas coisas. Nini dá a cara pela associação “A Garouta do Calhau” – uma organização com vários projectos sociais, que apoia jovens e idosos. O nome da associação foi escolhido pela ‘designer’ de interiores e está ligado à sua obra de pintura, que é inspirada nos garotos do calhau – nome pelo qual eram conhecidos os miúdos que há uns anos percorriam as praias de calhaus rolados da ilha da Madeira e iam com os pescadores pedir moedas quando os navios que iam para a África do Sul paravam no porto do Funchal. “Havia um concurso que se chamava a mergulhança, em que o recordista num único mergulho apanhava 16 moedas. Andar ali à procura de 16 moedas no fundo do mar não é nada fácil”, explica Nini.

Após a sua primeira exposição, intitulada “As quatro estações” e muito inspirada nas flores da Madeira, a ‘designer’ lembrou-se de começar a pintar calhaus e intitulou-se “A Garouta do Calhau”. Hoje, quando faz palestras ou pinta quadros os lucros revertem a favor de várias causas sociais, inclusive da associação “A Garouta do Calhau”. “É um outro lado meu”, diz.

O princípio de tudo e o acesso aos maiores ‘designers’ do mundo

Nini Andrade Silva nasceu na Madeira e os seus pais, ambos professores, tinham uma escola. Fez o liceu ainda na Madeira e depois rumou a Lisboa para estudar no IADE.

Foto: Nick Bayntun

CR7 Chaise-lounge: Cadeira desenhada com Cristiano Ronaldo
Foto: Inês D’Orey

Savoy Palace
Foto: Nick Bayntun

Com 15 anos começou a ir para Nova Iorque com a família Kiekeben, de quem era amiga, e que trabalhavam com grandes ‘designers’ da altura, como David Easton e Stark & Company, e teve a certeza de que queria singrar no mundo do ‘design’ de interiores. “Foi muito bom ter contacto com estas pessoas e com o seu trabalho. Estes arquitectos e ‘designers’ foram uma grande influência para mim”, revela.

Quando terminou a licenciatura no IADE, Nini ainda deu aulas durante três meses. Mas sentiu que aquele não era o seu destino e foi para Nova Iorque estagiar e aprender com alguns dos maiores ‘designers’ de então. “Tinha acesso aos grandes, estava no centro do mundo, foi um passo muito grande”, conta. Seguiu-se a África do Sul, onde estudou pintura, e mais tarde a Dinamarca, onde estudou tudo o que tinha a ver com arranjos florais, plantas e flores. “Por isso é que quando faço os hotéis sou eu que trato também dos arranjos de flores e escolho tudo com imensa dedicação e prazer”, explica Nini.

Regressou então ao Funchal e decidiu concorrer com o projecto de interiores da sua própria casa ao concurso do grande Andrew Martin – um livro no qual Andrew Martin selecciona e publica os trabalhos dos grandes ‘designers’ de todo o mundo. Na altura, Nini planeava abrir a sua própria empresa e este foi um teste a si própria. “Se não corresse bem, não estava no caminho certo e tinha de mudar”, justifica. A casa de Nini Andrade Silva ficou no livro e com este começaram a chegar vários pedidos para trabalhos internacionais, e depois também os prémios internacionais.

A primeira loja que Nini Andrade da Silva abriu chamava-se “Espaços Interiores” e ficava fora do Funchal. Abriu, entretanto, outros espaços no Funchal e mais tarde o Atelier Nini Andrade Silva, em Lisboa, hoje com 35 anos, e de seguida rumou a Kuala Lumpur, na Malásia, para abrir mais um espaço. “Fazia as feiras da Europa todas e depois comecei a fazer também as da Ásia e percebi que as coisas eram feitas nalgum lado…”, recorda. Em Kuala Lumpur conheceu, Loui Voon, de quem hoje ainda é amiga, e tornaram-se sócios na Malásia. Na altura abriram um ‘atelier’ naquele país e deslocou vários arquitetos de Portugal para Kuala Lumpur.

A ‘designer’ de interiores passou os anos a trabalhar em ‘ateliers’ espalhados pelo mundo. Mas ao fim de 2 anos e meio voltou à Rua do Barão e tomou uma decisão. “Achei que em vez de ter vários ‘ateliers’ espalhados pelo mundo fazia mais sentido para o ‘design’ de interiores ter o ‘atelier-base’ em Portugal e ser convidada para ir aos outros países”, recorda.

Design Centre Nini Andrade Silva
Foto: Nick Bayntun

Estava certa. Hoje, Nini Andrade da Silva está sediada na Madeira, mas os convites para trabalhos internacionais estão sempre a chegar. Entre os vários projectos que agora tem em mãos está o projeto de interiores do W São Paulo Hotel, no Brasil, para a cadeia Marriott. “E a história deste W é muita engraçada porque fica na Rua do Funchal, por mais voltas que dê vou parar à Madeira”, conta a ‘designer’ divertida.

A seu cargo está também neste momento a decoração de dois hotéis Hilton, um no Algarve e outro em Gaia. E recentemente acabou de fazer uma loja em Singapura e o projeto de uma casa no Japão e outra em Londres. “Fazemos muitas casas grandes mas somos mais conhecidos pelos hotéis porque as casas são privadas e não podemos mostrar”, explica.

Por cá, está a projectar a decoração do Hotel Reis, na Avenida Almirante Reis, em Lisboa. “É um projecto para uma cadeia mais irreverente e que vai representar os reis da rua, as várias raças, as várias pessoas que vivem naquela artéria da cidade. É muito interessante porque é um clássico, mas é muito atrevido e irreverente. Vão aparecer as tatuagens…”, antecipa a ‘designer’. A este hotel juntam-se ainda um outro em São Pedro do Sul, outro na Ilha Terceira, nos Açores, e outro na Madeira.

Apaixonada pela sua ilha, onde continua a viver, assume que tem outras paixões além-fronteiras. “Adoro Nova Iorque, sinto-me mesmo em casa em Bangkok, e gosto mesmo muito, muito de Bogotá e de Cartagena das Índias. É um sítio que podia viver já amanhã, na Colômbia. Mas eu gosto de tantos sítios que conheço, gosto da África do Sul, gosto do Brasil…”, confessa com entusiamo.

Nini tem, aliás, uma ligação muito especial à Colômbia. Depois de ter desenvolvido o ‘design’ de interiores do primeiro hotel naquele país – o B.O.G., em Bogotá, e com o qual ganhou vários prémios – já fez mais nove hotéis na Colômbia. E hoje é a Cônsul Honorária da Colômbia na Madeira. “Tenho uma grande paixão por aquele país, é um sítio que eu adoro”, assume.

Foto: Pedro Correia da Silva

Como uma das mais prestigiadas e premiadas ‘designers’ de interiores a nível internacional, Nini Andrade Silva é considerada uma verdadeira embaixadora do que Portugal tem de melhor em termos de criatividade. E não esconde o orgulho que sente por levar o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo. “Nós somos muito grandes e não nos podemos esquecer disso. Costumo dizer que somos descendentes da padeira de Aljubarrota, fomos nós que descobrimos o mundo. Não nos podemos esquecer da nossa grandeza, da nossa herança e da nossa responsabilidade”, defende a ‘designer’, que já foi distinguida pelo governo português com a Ordem de D. Henrique. “Sempre levei de facto o nome da Madeira e de Portugal comigo”, diz.

Actualmente, Nini Andrade Silva integra um grupo chamado Marcas de Portugal que pretende mostrar o que de bom se faz em Portugal e que junta empresários e profissionais de vários quadrantes para apoiar e promover as marcas nacionais.

E onde vai buscar a sua inspiração? “Eu até sou capaz de ir buscar inspiração a um balde do lixo”, responde divertida. “As pessoas atiram as coisas para o lixo e sem se aperceberem juntam-se cores e formas que são completamente diferentes de tudo”, explica a ‘designer’.

Sempre que um cliente a contacta com uma proposta, a Inês Duque Dias, licenciada em gestão cultural e um dos seus braços direitos, vai pesquisar tudo sobre o contexto territorial e país em que se insere o projecto e, depois, faz um ‘briefing’ à ‘designer’ com o essencial. E é nessa fase que Nini Andrade Silva começa o seu processo criativo. “Começo a pensar e faço-o por todo o lado onde ando, 24 horas por dia. Se estiver a ver um filme sou capaz de parar para tirar uma fotografia, vou buscar inspiração ao mar, ao sol, à vida marinha, às plantas, a um balde do lixo… tudo”, revela divertida.

Depois, Nini chega ao ‘atelier’ e explica o conceito. Começam então a desenhar, recorrem a várias imagens de referência para o cliente perceber o conceito e quando têm carta branca do cliente começam a desenhar tudo. “Desenhamos desde o pavimento, aos lavatórios, os puxadores das portas, os candeeiros, gostamos de desenhar tudo”, diz a ‘designer’.

O cacho de bananas da Bordallo Pinheiro e a cadeira do Ronaldo

Há uns anos Nini Andrade Silva foi convidada para desenhar uma colecção para a Bordalo Pinheiro inspirada na Madeira. “A colecção está muito bonita e está a ser um sucesso, até ganhamos um prémio numa feira na Alemanha como o melhor projecto de cerâmica”, conta, revelando que a colecção, inspirada num cacho de bananas prata, tem uma “história engraçada por trás”.

A ideia inicial era Nini fazer peças para um serviço de jantar da Vista Alegre. Quando estava em Lisboa pediu a um dos seus colaboradores na Madeira para lhe enviar um pouco de casca da bananeira, uma banana, a flor da bananeira, que dá pelo nome de pinguelo, para poder levar consigo à reunião na Visabeira. “Quando me preparava para entrar na reunião recebi uma caixa enorme. Era um cacho de banana prata e tive de entrar para a reunião com o cacho, já não tinha hipótese. Pus o cacho de bananas em cima da mesa a pensar que iam achar que eu era completamente maluca. O cacho de banana prata é mais pequeno e muito perfeito, para mim era normal, mas para uma pessoa que nunca viu, olhar para aquilo era uma coisa incrível”, conta.

Os planos mudaram de imediato. A Vista Alegre estava a desenvolver uma linha com peças para coleccionadores, que já contava com Paula Rego, e pediram à ‘designer’ que lhes fizesse uma peça de ‘design’ para essa colecção com o cacho de bananas. “Resultado, eu tenho uma peça de arte na colecção da Bordallo Pinheiro só porque houve um engano e foi para Lisboa um cacho de bananas”, relata divertida. Também esta peça tem a sua assinatura, a já mencionada linha preta e um calhau das praias da Madeira incrustado.

Outro projecto em que deixou a sua assinatura foi uma cadeira desenhada com Cristiano Ronaldo, no âmbito de numa iniciativa da Câmara Municipal de Paredes. “Por incrível que pareça a mim calhou-me o Cristiano Ronaldo, madeirense e por quem tenho uma grande admiração. A cadeira era feita com as medidas, o nome e a história dele. A cadeira foi feita como se fosse uma pedra, veio uma onda dourada que levou o Cristiano para fora da ilha e o transformou no menino de ouro. A estrutura era toda feita com as redes das balizas de futebol e a cadeira era dourada porque o Cristiano é o nosso menino de ouro”, explica.

No total foram feitas apenas cinco réplicas dessa cadeira – uma foi vendida pela Christie´s num leilão e foi para Singapura, e o dinheiro reverteu para o ACNUR (apoio aos refugiados), outra ficou com o Cristiano Ronaldo, uma está em exposição no Design Centre de Nini Andrade Silva, no Funchal, a quarta ficou para a Câmara de Paredes e a última dá a volta ao país em exposições. “Na China foi preciso polícia à volta da cadeira porque as pessoas estavam doidas a querer tocar na cadeira do CR7”, conta entre gargalhadas.

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