Quarta-feira, Outubro 5, 2022

75 anos a fazer a diferença

Beatriz Imperatori, Diretora executiva da UNICEF Portugal

“(…) this organization is 200.000 tonne vessel with a fifteen mile turning circle – it’s an oil tanker and you are trying to drive it like a speedboat”.
Peter Adamson em “The mad American”, Ensaio Church House Conference Center, Junho 1997, in Jim Grant, UNICEF visionary.

A UNICEF é sem dúvida uma imensa agência, pelo seu mandato universal; pela sua presença em 190 países e regiões e pelos milhares de profissionais, parceiros, doadores institucionais e particulares, coletivos e individuais, e governos que fazem do Fundo das Nações Unidas para a Infância, o que ele é hoje.

A dimensão e a escala da nossa presença vêm com o desafio da rapidez e da flexibilidade. Anos de experiência a responder a emergências em todos os cantos do mundo preparou-nos para a resposta a esta Pandemia Universal. Pela primeira vez fomos chamados a responder ao mesmo tempo em todo o mundo. O que nos foi pedido para além da resposta às crianças foi que utilizássemos a nossa infraestrutura e experiência ao serviço de toda a humanidade, independentemente da sua idade, nacionalidade ou situação.

A nossa dimensão e a nossa solidez, a par de uma rápida capacidade de mobilização de recursos faz da UNICEF uma agência impar. Este ano fazemos 75 anos e nunca a nossa missão foi tão importante.

A UNICEF nasceu em 1946 para responder às necessidades de crianças cujas vidas foram destroçadas pela II Guerra Mundial. Independentemente do país onde viviam, ou do papel e responsabilidades que esse país teve na Guerra, o que realmente importava era chegar às crianças em maior risco e às que mais precisavam. Hoje, como há 75 anos, o papel da UNICEF é garantir todos os direitos, para todas as crianças, num contexto global extraordinariamente complexo que se mobilizou numa outra guerra, sem tréguas e sem fronteiras, contra a pandemia de Covid-19.

“HOJE, COMO HÁ 75
ANOS, O PAPEL DA UNICEF
É GARANTIR TODOS OS
DIREITOS, PARA TODAS AS
CRIANÇAS”

Os confinamentos generalizados, o fecho de uma parte significativa da economia e o encerramento das escolas, assim como a limitação no acesso a cuidados de saúde, de nutrição e de proteção, ou à prática de atividades desportivas, culturais e de lazer, tiveram um impacto tremendo na vida de milhares de milhões de crianças e jovens em todo o mundo, criaram novas situações de carência e agravaram as diferenças e as vulnerabilidades preexistentes. Para que possamos continuar a progredir em matéria de direitos da criança, temos que unir esforços para combater a pobreza extrema – com implicações drásticas ao nível da educação, alimentação e saúde das crianças, nesta dimensão é crítico retomar com determinação as campanhas de imunização, cuja paralisação ao longo do último ano e meio causou um profundo impacto na prevenção de doenças evitáveis. Na mesma linha, é fundamental recuperar as aprendizagens e trazer de volta as crianças que deixaram a escola por causa da pandemia e de outros fenómenos. Durante este período deixaram a escola 168 milhões de crianças e jovens em todo o mundo. A situação crítica vivida hoje em Madagáscar é disto um exemplo. A avaliação realizada nas 12 comunas afetadas pela emergência nutricional atualmente vivida, revelou uma perceção prevalente (mais de 70% dos entrevistados) de maior exposição das crianças ao trabalho infantil, exploração sexual e casamento infantil. 72% das mulheres e meninas entrevistadas sentem-se inseguras nas suas vidas diárias. Muitas destas situações podem ser prevenidas se as escolas estiverem abertas e se conseguirmos que estas crianças nela permaneçam. A educação é o mais importante instrumento para quebrar o ciclo inter-geracional da pobreza que em média perdura durante cinco gerações.

As escolas são, muitas vezes, o único lugar seguro onde as crianças podem relacionar-se com outras crianças e adultos de confiança. A pandemia – e os serviços à distância – sublinharam a necessidade de reforçar a capacitação da comunidade educativa para o seu papel social e de proteção. A UNICEF em Portugal tem vindo a trabalhar para que os profissionais da educação sejam dotados de ferramentas e estratégias de deteção e intervenção em situações de perigo ou risco. A resposta da comunidade educativa tem sido extraordinária e hoje as escolas e os seus profissionais estão mais conscientes e capacitados para agir em defesa das crianças e dos seus direitos. Os desafios são muitos, as necessidades são imensas e os recursos são escassos.

Contudo, o que nos falta em meios, sobra-nos em determinação, capacidade de mobilização e entusiasmo. O legado da UNICEF e as conquistas obtidas nestes últimos 75 anos, verdadeiramente notáveis no que respeita à evolução dos indicadores de desenvolvimento humano (apesar de tanto, mas tanto estar ainda por cumprir), dão-nos confiança num futuro melhor.

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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