Quinta-feira, Outubro 21, 2021

60 anos a transformar a Delta no café da nossa vida

Fotos gentilmente cedidas pela Delta Cafés

Entrevista a Rui Nabeiro, Fundador e Presidente do Grupo Nabeiro – Delta Cafés

Ana Valado

A Delta nasceu em 1961 num armazém com pouco mais de 50 metros quadrados e com apenas três funcionários. Hoje, o Grupo Nabeiro actua nas mais diversas áreas: da alimentar à hotelaria, do automóvel à imobiliária. De Campo Maior a Delta partiu à conquista do Mundo, estando presente em mais de 35 países, espalhados por cinco continentes e empregando cerca de 3500 pessoas.
Este ano a empresa, que é também uma família, comemora o seu 60º aniversário.
This year the company, which is also a family, is commemorating its 60th anniversary.

Em 1961, numa altura em que o mercado de café parecia estabelecido e pouco aberto à mudança, e a população tinha pouco poder de compra, o jovem alentejano Rui Nabeiro, na altura com apenas 30 anos de idade, mas já com 17 de experiência profissional, soube adaptar a sua oferta e marcar a diferença.

Os clientes foram conquistados um a um, cara a cara, em viagens que Rui Nabeiro fez de norte a sul do país com o lema que ainda hoje, 60 anos depois, pauta o seu trabalho e o seu legado: um cliente, um amigo.

Mas nem sempre foi fácil. O primeiro ano de vida de Delta foi muito difícil. Foi provavelmente a época em que Rui Nabeiro mais ouviu a palavra “Não”. O que nunca o impediu de continuar, muito pelo contrário, deu-lhe mais força.

Oficialmente inaugurada em Fevereiro de 1961, num armazém com apenas 50 metros quadrados e duas bolas de torra, a Delta vê-se obrigada a criar soluções criativas para vingar. “No início não consegui vender um quilo de café, mas a imaginação ajudou-me e comecei a vender as cevadas, que era o produto que o povo conseguia adquirir”, conta Rui Nabeiro, que nestes primeiros anos conciliava o novo desafio com o seu trabalho na Torrefação Camelo, onde tinha começado a trabalhar com o tio.

O sistema de comércio também fez a diferença. Ao perceber que os seus concorrentes não se deslocavam até aos clientes, nem lhes davam assistência, o jovem empreendedor começou a entregar o produto porta a porta, concedendo crédito, facilitando prazos de pagamento e assim foi criando a tal relação de proximidade, que ainda hoje é o segredo do sucesso da Delta.

Evolução dos logotipos da empresa

O nome da marca foi proposto pela agência que na altura tratava das patentes e marcas da empresa. “A minha intenção era dar-lhe o meu nome”, conta Rui Nabeiro, “mas a acústica agradável e a facilidade de pronunciação e em diferentes línguas convenceram-me”.

Em 1968, Rui Nabeiro compra a Herdade das Argamassas, onde se veio a instalar o complexo industrial da Novadelta. São 106 hectares de terra que marcaram o início de um novo capítulo na história da empresa e a partir do qual a história se desenrolou.

Também aqui, no coração das vinhas e junto à fábrica, se localiza a Adega Mayor, inaugurada em 2007, com a assinatura do arquitecto Siza Vieira, fruto da grande paixão de Rui Nabeiro pelos vinhos e pela sua terra. Mais um sonho que superou e materializou. Este com a sua neta, Rita Nabeiro.

Hoje, 60 anos depois pode dizer-se que a Delta é a concretização do maior sonho do “Senhor Rui”, como carinhosamente é tratado por todos que com ele convivem. Mas não é o único, como o próprio gosta de dizer: “A vida é um sonho permanente”.

Actualmente, a Delta é uma empresa com passado, mas de olhos postos no futuro, com uma herança de muita responsabilidade e que, segundo o próprio fundador, “obriga a uma atitude firme, rigorosa, forte e corajosa” por parte da família que a carrega. E está encarregada de a fazer avançar. “Vocês ficam responsabilizados, que já estão, por manter o que há e crescer todos os dias. Porque há família para isso”, diz frequentemente o patriarca aos seus filhos e netos que com ele gerem a empresa líder do mercado nacional no seu sector e que emprega mais de 3500 colaboradores.

Ao longo das seis décadas de história da Delta, muitas foram as transformações por que a empresa passou – e o pequeno negócio de café acabou por dar lugar a um império.

De Campo Maior para os quatro cantos do mundo

A Delta já tinha iniciado a rota para a internacionalização em 1986, ano em que fundou um departamento em Badajoz e entrou no mercado espanhol, e a intenção foi reafirmada em 1998 com a chegada a Angola. Porém foi no novo milénio que a aposta foi reforçada com uma série de novos destinos, entrada directa em França em 2007 e no Luxemburgo em 2011.

Em 2012, a Delta passou a estar presente de forma directa no Brasil. Através da Delta Foods Brasil, sediada em São Paulo, o Grupo Nabeiro entrou no país, tornando-se o seu maior mercado até então. O recorde foi, no entanto, esmagado dois anos mais tarde, com a chegada à China.

Líder no mercado nacional, a Delta chega hoje a mais de 35 países, espalhados por cinco continentes, quer seja com uma presença directa ou indirecta, através de parcerias com distribuidores locais.

Com as exportações a representarem actualmente mais de 30% da faturação do Grupo Nabeiro, os responsáveis pela empresa sonham ultrapassar os 50% e ainda posicionar a Delta Cafés entre as 10 maiores marcas de café do mundo até 2030.

Adega Mayor
Foto: Gonçalo Vilaverde

Centro de Ciência do Café
Foto: CCC

Despertos para o futuro

Inovação. Sustentabilidade. Responsabilidade Social. Estes são os três pilares em que assenta a actividade da Delta, assim como das restantes marcas do grupo Nabeiro, demonstrando que os muitos anos no mercado representa solidez, não estagnação.

O primeiro é o da responsabilidade social, inspirado na visão do seu próprio fundador, que acredita que se conquista não para acumular, mas para partilhar, e que a alma do negócio está sempre nas pessoas.

Com o objectivo de partilhar e dar a conhecer ao mundo o café, a razão de existir da Delta, foi criado em 2014 o novo Centro de Ciência do Café, situado na Herdade das Argamassas. Uma unidade de interpretação, divulgação científica e tecnológica e promoção turística que tem como objectivo tornar-se uma referência nas áreas de desenvolvimento científico, tecnológico, educacional, turístico e cultural.

O segundo é o da inovação, uma ferramenta indispensável para manter a relevância dos produtos e serviços oferecidos, surpreendendo e estimulando o próprio mercado.

Exemplo disso é o robô que serve café na Web Summit, resultado de uma parceria entre a Delta Q e a ‘start-up’ portuguesa Follow Inspiration. Com uma máquina de café incorporada, o robô Qoffee Qar segue as pessoas à sua volta através de inteligência artificial e reconhecimento facial.

O terceiro é o da sustentabilidade, que está na agenda do Grupo Nabeiro desde os anos 90, mas que ganha especial destaque na actualidade, quando são revelados os mais ambiciosos planos para fazer da década de 2020 a mais sustentável de sempre.

Do cruzamento destes três pilares surgem novos produtos como a cápsula Delta Q eQo, que é 100% orgânica e biodegradável, sem plásticos, microplásticos ou alumínio. Ela vem acompanhada de uma promessa: “até 2025 todas serão assim”.

No mesmo sentido, a Novadelta, fábrica do Grupo, passa a consumir energia 100% proveniente de formas limpas e renováveis. Com o programa ReciclQla recolheram-se selectivamente cápsulas utilizadas para tratar convenientemente os resíduos que antes seriam desperdício. Também a frota comercial da empresa, que já é totalmente eléctrica em Lisboa, está a ser renovada, com o intuito de tornar as mais de 100 viaturas da Delta 100% eléctricas até 2025.

De destacar ainda a recente parceria entre a Delta Cafés e a ‘start-up’ Nãm Urban Farms. A ideia é aproveitar borras de café, já que apenas 2% da biomassa é utilizada, para do que seria desperdício fazer nascer cogumelos. A Delta recolhe as borras de café e a Nãm transforma-as em cogumelos.

A funcionar actualmente em Marvila, naquela que é a primeira quinta urbana em Lisboa, a Nãm tem agora capacidade de transformar três toneladas de borras de café e dar origem a uma tonelada de cogumelos por mês.

É neste círculo de sustentabilidade que as duas empresas querem apostar e assim aumentar de uma para quatro toneladas a produção de cogumelos.

A longo prazo sonha-se ainda com a produção de café em território português. A Delta e a Associação de Produtores de Café dos Açores trabalham em conjunto no sentido de avaliar e melhorar os aspectos envolvidos na produção, transformação e comercialização de café na região. O projecto será capaz de reduzir a pegada ecológica associada ao sector, bem como valorizar os recursos do país.

A família Nabeiro: Rita Nabeiro, Rui Miguel Nabeiro, João Manuel Nabeiro, Rui Nabeiro, Helena Nabeiro, Ivan Nabeiro e Marcos Tenório Foto: Arlindo Camacho

Entre 2023 e 2025, tudo indica que estarão reunidas as condições para lançar o café dos Açores no mercado.

No ano em que se assinalam os seus 60 anos de história, a Delta Cafés lança uma nova campanha de comunicação que celebra o seu percurso e longevidade, o pioneirismo e inovação de marca assentes na sua visão de futuro.

Com a assinatura “Despertos para o futuro”, a campanha dos 60 anos celebra a forte capacidade de inovar da Delta Cafés num percurso de olhos postos no futuro na procura das melhores soluções para todos.

Conversa de café com Rui Nabeiro:

Fazendo uma retrospectiva, ao longo do seu percurso empresarial, qual foi a sua maior conquista?

Para quem começou praticamente do zero como eu, posso dizer que toda a minha vida foi feita de conquistas. Mas talvez a minha maior conquista tenha sido pensar como a concorrência trabalhava e como é que eu ia trabalhar. Isso para mim foi uma vitória.

Eu comecei nos anos 60 com a Delta e pensei como podia fazer a diferença. Tive um dos melhores vendedores da altura a trabalhar comigo, mas acabou por desistir porque não conseguia vender nada. Fiz-me eu à estrada.

Enquanto os outros expediam o café da sua fábrica através do caminho de ferro ou camionagem, eu meti-me logo numa carrinha e entregava o café à porta dos clientes, concedia crédito, facilitava nos prazos de pagamento, tudo o que a concorrência não fazia, e fui ganhando a simpatia dos clientes pela proximidade. E é essa proximidade que é importante na vida do ser humano, em qualquer que seja a profissão.

A partir daí as coisas começaram a acontecer. Como eu costumo dizer: “Quando os outros iam à procura dos clientes eu já vinha de volta com os clientes”.

Também não fiquei à espera que o fornecedor me viesse vender produto para eu posteriormente vender o produto transformado. Logo nessa altura comecei a procurar o café nos sítios onde ele se produzia, tinha a ambição de querer fazer melhor!

Ao longo da vida foram aparecendo muitas oportunidades de ir crescendo, não pensando só em mim. O meu cliente começou a ser tratado como um parceiro e ainda hoje é assim.

Para mim o cliente é que manda.

Para além do valor da proximidade, o que diferencia a Delta dos seus concorrentes e o que a tornou numa das empresas mais reputadas da actualidade?

É uma sequência que se vai desencadeando, mas é preciso estar muito atento. Eu sempre digo aos meus netos e aos meus filhos que é necessário não falhar um milímetro e manter sempre o mesmo grau de exigência que o pai sempre teve desde o início.

Nós dizemos que somos líderes, mas isso não é nada, temos é que lutar para continuar a sê-lo. E isso é a mais-valia que tenho, de pensamento, de atitude, da forma de pensar e da forma como sirvo quem me serve a mim bem, que é o cliente que me compra.

Tudo isto se aplica a qualquer situação na vida de qualquer pessoa. Com o meu pessoal da fábrica, não existe a relação patrão-empregado, somos muito amigos, não sou eu, somos nós! É uma cultura de trabalho, uma cultura de prestação de serviço e uma cultura de saber que as pessoas ficam satisfeitas connosco.

A nossa força é sempre dar felicidade ao cliente. E essa proximidade que falo com frequência mostrou-nos mais uma vez, nesta fase de pandemia que atravessamos, que é esse o caminho, batemos à porta de inúmeros clientes a perguntar se precisavam de alguma coisa, como fizemos também com o nosso pessoal. Isto é fazer comércio!

O que representam para si os seus clientes?

A minha força está no cliente. O cliente para mim está à frente de tudo. Está à minha frente, à frente dos meus colaboradores, e vivo por esta causa. Eu vivo num sentimento de agradecimento, mas também de bem servir. Por um cliente faço tudo o que for necessário.

Sabemos exactamente quem está connosco, é como a família, talvez seja a relação mais próxima que posso comparar. Existem coisas maravilhosas entre o fornecedor e o cliente. Um cliente é mais do que um amigo.

Saber agradecer, saber rir uns para os outros, saber estar, isso é de facto estarmos no mercado.

Tem ainda algum sonho por concretizar?

O homem normalmente está sempre cheio de sonhos. Por exemplo, recentemente apresentámos um novo projecto na área da sustentabilidade, aproveitando borras de café para produzir cogumelos. Para já é uma coisa pequena, mas que se pode tornar grande e o país precisa de muitas coisas como esta.

Sou bastante cauteloso, gosto de ir pensando naquilo que vou fazendo e aposto muito na área da sustentabilidade.

Estou sempre a sonhar, com o cliente, com o mercado, com tudo e a sonhar fazer coisas grandes. Os netos estão em boa idade, os filhos ainda em idade boa é pô-los a sonhar também.

São seis os elementos da família Nabeiro ligados à empresa. Que mensagem quer deixar às novas gerações que amanhã tomarão conta do negócio?

Digo sempre aos meus: “Sermos aquilo que sempre temos sido”. Quando comecei tive uma época difícil, mas tive ambição e ultrapassei. E os meus também têm essa ambição do querer. Uma ambição natural. Estão preparados e sei que não me vão envergonhar.

Celebrou este ano 90 anos de idade, tendo sido este o momento escolhido para apresentação do livro de José Luís Peixoto “Almoço de Domingo”, um romance biográfico onde Rui Nabeiro é a personagem principal e onde é contada a sua história de vida. Que lições e conselhos pode dar a quem hoje está a começar?

Quem está a começar tem sempre algumas dificuldades. O melhor conselho que posso dar é exactamente aquilo que eu fiz: trabalhar e acreditar que somos capazes.

Numa empresa, reunindo quatro ou cinco profissionais de mão cheia somos capazes de chegar a todo o lado e fazer uma vida para todos.

No contexto que estamos a viver actualmente derivado da pandemia Covid-19, é importante passar esta mensagem e esta cultura. O querer e o acreditar faz tudo acontecer.

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