Sexta-feira, Junho 25, 2021

“59% do investimento nas ‘startups’ portuguesas é originário dos EUA”

Entrevista a António Martins da Costa, Presidente da Câmara de Comércio Americana em Portugal (AmCham Portugal)

Ana Valado

António Martins da Costa, Presidente da Câmara de Comércio Americana em Portugal, fala do caminho da AmCham Portugal desde a sua fundação há sete décadas atrás até aos dias de hoje, transformando-se numa auto-estrada nos dois sentidos. Tendo como objectivo inicial a dinamização dos investimentos e do comércio americanos em Portugal, a partir de determinada altura passou também a apoiar o comércio e o investimento de Portugal nos EUA.

 

A AmCham Portugal é uma entidade que tem como principal propósito desenvolver e facilitar as relações económicas e comerciais entre Portugal e os Estados Unidos da América (EUA). De que forma é realizado esse apoio?

A AMCHAM posiciona-se como uma plataforma que facilita e promove o desenvolvimento de negócios entre os dois lados do Atlântico. E faz isso através das suas acções de divulgação de informação, formação e aconselhamento – realizadas em conjunto com os seus associados -, da promoção de eventos de ‘networking’ e do lançamento e acompanhamento de missões empresariais nos dois países.

Para dar resposta aos desafios do mundo presente, a Câmara está organizada em grupos de actividade, que abordam alguns dos temas actuais mais relevantes para o universo empresarial: Digitalização, Sustentabilidade, I&D e Educação, Saúde e Turismo.

Como se encontra actualmente a relação entre estes dois países?

Excelente. Baseada nos tradicionais laços históricos entre as duas nações – recorde-se que Portugal foi um dos primeiros países a reconhecer a independência dos EUA -, na forte presença de uma comunidade bem sucedida de luso-descendentes na América, na posição geo-estratégica de Portugal no mundo – reforçada pelo facto de Portugal ser um membro fundador da NATO -, os laços económicos têm vindo a reforçar-se continuamente. Mais recentemente, o fluxo interatlântico de quadros académicos e de gestão, estes mais associados aos investimentos que têm sido realizados em ambos os países, têm ajudado consolidar esse caminho.

Este ano comemora-se o 70º Aniversário da AmCham Portugal. Que balanço faz da actividade da empresa e quais as grandes conquistas ao longo do seu percurso?

A AMCHAM foi fundada após o final da Segunda Guerra Mundial, em 1951, por um conjunto de empresários americanos que quiseram manter-se e investir em Portugal. Se, numa primeira fase, a Câmara estava vocacionada para a gestão e dinamização dos investimentos e do comércio americanos em Portugal, a partir de determinada altura passou também a apoiar o comércio e o investimento de Portugal nos EUA. Alargou-se então o caminho existente, transformando-o numa auto-estrada nos dois sentidos.

Presentemente, a AMCHAM tem no seu seio, e em particular na sua Direcção, as grandes empresas americanas com presença em Portugal, bem como os maiores investidores portugueses nos EUA.

Ao longo do ano 2021 está previsto algum programa específico para assinalar esta data? Coincidindo com a Presidência Portuguesa da União Europeia, vai existir alguma interacção com a AmCham Europe potenciando as relações económicas Portugal, União Europeia e EUA?

Em 2021 coincidem dois factos: o 70º aniversário da Câmara e a Presidência Portuguesa da EU, durante o primeiro semestre. Por esta razão, decidimos preparar um programa que consiste num conjunto de cinco ‘webinars’, realizados em conjunto com a nossa congénere AMCHAM Europe, sobre o tema da Presidência Portuguesa, e que contam com a participação de figuras de destaque da Comissão Europeia e da Administração dos EUA. Junta-se a isso a realização de uma “Transatlantic Business Summit”, no início do segundo semestre, com uma perspectiva mais geo-estratégica e macroeconómica da relação interatlântica, bem como a já tradicional gala dos “AMCHAM Tributes”, destinada a galardoar empresas e personalidades que se tenham destacado na intensificação das relações entre os dois países.

“A AMCHAM FOI FUNDADA APÓS O FINAL
DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, EM 1951,
POR UM CONJUNTO DE EMPRESÁRIOS
AMERICANOS QUE QUISERAM MANTER-SE
E INVESTIR EM PORTUGAL.”

Quais as principais características que tornam Portugal um país atractivo para as empresas americanas?

Há um conjunto de factores que tornam Portugal um país claramente atractivo para se ter relacionamento comercial e para investir, que estão bem expressos no Relatório Anual de Competitividade do “World Economic Forum”. Destacam-se, entre eles: a qualidade das infra-estruturas, do serviço de saúde, do ensino superior, das iniciativas de I&D e a disponibilidade de quadros qualificados em engenharia e gestão. Acrescem a localização, a hospitalidade, a segurança, a fluência em inglês, o custo de vida e, nalguns casos, os incentivos nacionais ou locais para o investimento. A estabilidade macroeconómica – Portugal não tem histórico de entrar em ‘default’ financeiro, apesar das diversas crises económico-financeiras que viveu – e a estabilidade político-social que apresenta, tornam também o país num destino apetecível para fazer negócios.

De acordo com segunda edição do “Barómetro das Empresas Americanas em Portugal”, compilado pela AmCham e pela consultora PwC, o investimento americano em Portugal, entre 2014 e 2019, ascendeu a 1.176 milhões de dólares (cerca de 967 milhões de euros), correspondendo a cerca 4% do investimento total realizado no país.
Quantas empresas estão neste momento a operar em Portugal e quais as principais áreas de incidência?

O número do investimento é ainda mais expressivo se pensarmos que representa 11% de todo o Investimento Directo Estrangeiro (IDE) em Portugal. Estamos a falar de cerca de 1.000 empresas, que empregam 50.000 colaboradores, 50% das quais estão no nosso país há mais de 10 anos (28% há mais de 20 anos), e cujas vendas totais representam 4,5% do PIB português. Mais de 3/4 das vendas são originadas nos sectores do comércio por grosso (46%) – produtos farmacêuticos, sistemas informáticos, tabaco, máquinas e equipamentos, automóvel -, nas indústrias transformadoras (19%) e em actividades de informação e comunicação (12%). Muito relevante ainda o facto de 59% do investimento nas ‘startups’ portuguesas ser originário dos EUA.

Portugal foi galardoado recentemente como a segunda melhor Marca-País da Europa, uma distinção obtida nos “Country Brand Awards”, com base na análise de factores como a percepção da gestão da crise de saúde causada pela Covid-19, durante a primeira vaga, a capacidade de criar uma marca turística e uma marca económica. Como os Estados Unidos vêem esta distinção?

Certamente com muito bons olhos. Não só os números do investimento e do comércio reflectem isso, mas também o aumento do fluxo de turistas americanos no nosso país é uma expressão de tal visão: aumentou 23%, antes da pandemia, tendo atingindo o número recorde de 1,2 milhões visitantes. Neste aspecto, o trabalho realizado pelos principais parceiros da AMCHAM, com destaque para a Embaixada Americana em Portugal, a FLAD e o AICEP, tem sido da maior relevância.

Simultaneamente, os EUA são neste momento o quinto maior destino de exportações portuguesas (e primeiro fora da União Europeia) e o segundo país não comunitário a visitar Portugal. O que poderá estar na origem desta boa relação Portugal- Estados Unidos?

Para além do investimento americano em Portugal, há que assinalar a posição dos EUA como importante mercado exportador para as empresas portuguesas. Neste momento, são o quinto maior destino dos produtos e serviços portugueses (no valor de quase 6.000 milhões de euros), e o segundo fora da UE (era o primeiro antes do Brexit). Para além dos factores anteriormente mencionados – história, cultura, alianças -, a dinâmica gerada pelo processo de globalização das economias e da informação, muito bem aproveitado pelos empresários, tem sem dúvida ajudado a consolidar estes laços, havendo também que reconhecer o papel das diplomacias de ambos os países, que têm contribuído significativamente para esta boa relação.

O que atrai as empresas portuguesas para o mercado americano? Em que sectores existem maiores oportunidades?

É difícil fazer distinções de sectores. Os EUA são “O Mercado” por excelência, com uma capacidade de consumo acima de qualquer outro país, com uma competição muito forte entre ‘players’, e com um foco permanente na inovação e na utilização mais eficiente dos recursos, por forma a obter os melhores ‘outputs’ com a menor utilização dos ‘inputs’. Não esquecendo também as sofisticadas máquinas de serviços financeiros, jurídicos, comerciais, de comunicação e de marketing que esse país apresenta. Por isso é importante, para quem pretende aí entrar, fazer antecipadamente os adequados estudos de mercado, desenhar estratégias e tentar arranjar parceiros locais, que ajudem no desenvolvimento do negócio. Mas sem dúvida que há sectores onde as oportunidades são neste momento maiores do que outras, como tudo que tem a ver com a transição energética e a transformação digital, mas igualmente nos sectores da saúde, acelerado agora com a crise pandémica, ou das infraestruturas, a carecerem de um investimento de enorme dimensão.

Na sua opinião, o que as empresas americanas podem ensinar a Portugal, a nível de comércio, negócios, turismo e na formação de competências?

O sistema empresarial americano ensinou muito a todo o mundo, mesmo com os erros que foram sendo cometidos e com as soluções encontradas para os reparar e corrigir. Desde há muito que o modelo de negócios desenvolvido nos EUA é ensinado nas melhores Business Schools internacionais – onde as portuguesas também se destacam – e onde temas como a eficiência dos mercados, os sistemas de financiamento, a regulação, a ‘governance’ empresarial (agora englobada no conceito mais vasto de ESG, Environment, Social, Governance), a ‘compliance’, a gestão de risco e o princípio de criação sustentável de valor são estudados e disseminados como boas práticas internacionais.

As grandes empresas portuguesas conhecem estes temas, praticam-nos na forma mais adequada aos mercados e sociedades onde operam, pelo que nessa matéria há essencialmente que alargar essas práticas a um universo maior, nomeadamente às PMEs.

A AmCham promoveu recentemente a conferência “5G, Cibersegurança e Transformação Digital”. Os EUA já têm as primeiras ofertas comerciais de 5G. Portugal está atrasado a este nível. Acha que podemos perder competitividade a nível tecnológico?

Portugal está, de facto, atrasado nesta matéria. E o princípio adoptado de aumentar a concorrência através de leilões – o que é sempre salutar –, neste caso parece ir no sentido inverso ao que outros países da EU estão a seguir, promovendo a integração de operadoras, por forma a garantir uma capacidade de investimento que possa fazer face aos avanços actuais nos EUA e na China. É, pois, necessário fazer um esforço adicional articulado entre as operadoras, as empresas e o Estado, de modo a se poder garantir que não há perda de competitividade do país.

Que papel é que o 5G pode assumir na promoção do comércio global? Que novas oportunidades poderão surgir?

A título de exemplo, já antes da pandemia se tinha observado que 60% das vendas do Black Friday nos EUA tinham sido feitas através de aparelhos móveis. Com a pandemia, esta tendência acelerou. Sendo o 5G uma tecnologia que disponibiliza maior largura de banda, menor latência e uma capacidade de ligação exponencial de equipamentos numa determinada zona, o seu efeito sobre o consumo será de grande impacto. Iremos assistir a uma alteração significativa da experiência do consumidor, com a incorporação nos equipamentos móveis de soluções de realidade virtual e aumentada, e com a utilização de motores de inteligência artificial na análise e aconselhamento dos comportamentos de compra. Haverá ainda um efeito sobre as cadeias logísticas de produção e distribuição, adaptadas aos novos processos, que permitirá uma maior eficiência e menor tempo de desenvolvimento e de entrega dos produtos.

Como é que as empresas americanas estão a ajudar Portugal na pandemia?

A melhor forma de visualizar o apoio das empresas americanas no combate à crise pandémica em Portugal será pela visualização do conjunto de testemunhos, sob a forma de pequenos vídeos, que a AMCHAM publicou no seu site e em diversas plataformas sociais, sob o título de “We Stand Together”. São relatos de algumas empresas relevantes associadas da AMCHAM, muitas da sua Direcção, desde farmacêuticas, tecnológicas, industriais ou de serviços de consultoria, que demonstram bem o que foi e está a ser feito, quer individualmente quer no seu conjunto, em prol da sociedade portuguesa. A Embaixada foi co-promotora desta iniciativa.

Quais os principais desafios da AmCham Portugal para 2021?

Continuar a apoiar as empresas associadas neste período difícil de crise pandémica e económica, ajudando-as a encontrar soluções para o futuro, através dos serviços que oferecemos, com particular destaque para a realização dos ‘webinars’ e dos outros eventos atrás mencionados. Ao mesmo tempo, procurar alargar a nossa oferta de serviços e tentar aumentar a nossa base de associados, tendo sempre em mente o princípio de que relações económicas fortes são um importante factor de reforço de relações mais alargadas entre dois países. Neste caso, entre estas duas nações, de história respeitável e que se respeitam, que têm visões muito alinhadas sobre os desafios com que a humanidade actualmente se confronta.

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